quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Amor de varanda

Cheguei em casa a noite muito cansada do trabalho. Estacionei o carro abaixo de uma cobertura do lado de fora, fui caminhando chutando pedrinhas na areia até chegar no alpendre de casa. Apenas três degraus, não resisti e sentei. Escorada na coluna de madeira ao lado fiquei olhando tudo aquilo e pensando: meu refúgio. 

A minha casa fica em uma pequena vila cheia de outras casinhas camufladas em nossa floresta particular. É tão tranquila que parece que eu moro sozinha para além das paredes desta casa. Os caminhos se iluminam pelos acessos de cada uma organicamente bem distribuídas. São bem rústicas. Todas em madeira. São lindas e cada uma com sua particularidade. A minha por exemplo, tem um caramanchão grande com com um sofá de madeira abaixo e bastante almofadas; ao lado tem outro com uma pequena mesa e quatro cadeiras. Um lugarzinho pronto pra se esparramar e outro que convida a uma refeição do lado de fora, ou pra jogar com amigos. Além desses espaços, tem várias lâmpadas espalhadas na área externa que causam a impressão que pode ter uma festa a qualquer momento, é tudo lindo e extremamente acolhedor. 

Que bom que chegou o final de semana. Chega de plantões esses dias. Estou faminta e com vontade de beber um bom vinho. Ligarei então pra algumas amigas...

Hoje é unânime. Aquele dia que ninguém pode. Nesse momento não é bom morar distante do centro da cidade. Eis que ouço baixinho, mas bem audível e prazeroso, o som de violão. Levanto me guiando por ele. Só um acústico e dedilhado show solitário, pelo visto agora tenho um novo vizinho artista. 

Vou indo em direção ao som, quando tropeço numa raiz, xingo e caio. O suficiente pra assustador o tocador, fazer ele parar de tocar e estreitar os olhos para me ver. Que ridícula estou e lá vem ele até mim. Sorri ao me ver limpando as mãos na calça e minha roupa branca ficar marrom, além de ver também, minha cara de idiota, claro. 

- Oi! Você está bem? 

- Sim. Foi só um pequeno tombo. 

Ele me deu a mão que estava livre pra eu me levantar melhor já que estava de joelhos. Aceitei e ao levantar devo ter feito uma cara horrível de dor, porque ele arregalou os olhos e esperou eu falar. Meu pé deve ter torcido e estava sangrando um pouco. "Droga". Comentei algo com ele, e foi então que me ajudou a chegar em casa. Queria chamar uma emergência e eu não permiti. Disse que teria como me cuidar, eu só precisava, bem, pegar uma maleta naquela escada. Assim fiz. Notei ele suando frio e dessa vez fui eu que perguntei se ele estava bem. Falou que fica meio tonto ao ver sangue, mas que estava tentando se manter firme ali e não focar naquilo. Eu sorri. Aquele homem não poderia mesmo ser acostumado com urgências. Cara de "rapaz de apartamento" que no máximo coloca um adesivo num pequeno corte e olhe lá. Mesmo assim se manteve em prontidão ali. Gentil. 

Coloquei uma bolsa de gelo no tornozelo e fiz um pequeno curativo no joelho. Ele ofereceu ajuda em várias coisas, mas a última me surpreendeu: "você está com fome?" respondi que sim. Ele sugeriu uma pizza e perguntou se eu poderia tomar vinho. Ah... Isso foi como música para meus ouvidos! Assenti. Ele então finalmente me cumprimentou, disse seu nome e perguntou o meu. 

- Ótimo... Eu vou em casa, pedir a pizza e colocar o vinho pra gelar um pouco. Ah, se precisar de algo, só chamar... Volto logo mais, Ângela.

Ele foi saindo e eu me peguei com um sorriso leve nos lábios. Ao entrar de fato em casa, fui a um quartinho, peguei as velhas muletas que já usei em outra época e fui tomar um banho. Vesti um vestido leve por ser mais fácil e depois coloquei um casaco por cima. Não demorou muito e Murilo tocou a campainha e lá estava ele... Tão jovem... Eu aqui com meus trinta e poucos admirando um novinho na porta com um vinho na mão, uma pizza na outra e um violão nas costas. 

- Terei show particular? 

- Se assim quiser... Posso fazer. Você parece que se vestiu a altura de um dos bons. Terei que me esforçar mais. Onde posso colocar essas coisas? 

- Nessa mesa, por favor. 

- Tá bom... Você conseguiu muletas tão rápido. Já havia se machucado antes?

- Foi, mas também, "faz parte" da minha profissão. Tento ter coisas disponíveis caso aconteça alguma urgência. 

- Você trabalha com o quê?

- Sou médica cirurgiã e você?

- Sou professor de história e músico. 

- Hmm...

- Conte-me sua história então.

- Prefiro tocar e cantar a dos outros... 

(Risos) - Não parece ser um garoto tão resistente pra se abrir assim. 

- Não sou, depois um vinho. 

- Hmm... Vamos começar os trabalhos então! 

- (Risos) Sim. 

E foi assim que começou, na minha varanda, a noite mais gostosa da minha vida e um amor improvável. 

P.S: Ao meu amor Murilo, é chegada a hora de cantar ou contar, mais uma vez a nossa história. 

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Realizando sonhos

Ana Clara é uma menina linda de olhos castanhos claros, cabelo liso cor de mel e pele branca rosada. Um verdadeiro milagre que saiu da barriga da minha querida esposa Ester. 

Ester não podia ter filhos segundo os médicos, mas o que pensávamos ser sintomas de uma doença grave, foi na verdade a descoberta do nosso bem mais precioso: Ana.

Ana Clara é uma menina cheia de perguntas; uma imaginação lindamente fértil e tem um coração maior que ela. Com seus 5 anos já carrega consigo uma sabedoria ímpar de quem aprecia a vida. Quando vamos ao parque, vejo a luz de Ana nitidamente. Ela é enérgica, solidária, generosa, sorridente, contemplativa e curiosa. É tão bonito vê-la vivendo. Não imaginava que ela nos levaria tanto para passear, para ser livre, para gostar do simples, para sermos tão presentes, pacientes e gratos. 

Apesar dela já ter sido enviada com um espírito tão bondoso, pedimos a Deus orientação pra educá-las da melhor forma; ensinamos quem está acima e olha por nós; a quem oramos pedindo tantas coisas e agradecemos. Ela já sabe que não é como um gênio da lâmpada ou um servo que faz exatamente como queremos; tudo tem que ser conforme a grandiosa e perfeita sabedoria, que vem dEle. E diante da vontade dEle.

Ana agora está aprendendo sobre "realização de sonhos". Ela já percebeu que existe uma força no nosso desejo que transforma situações; que faz com que tantas coisas se tornem reais. Dia desses, ela ficou me questionando qual era o passo a passo de como os sonhos se realizam. "Precisa querer, falar, pedir... e mais o quê?" Eu disse a ela que depende do que ela quer conquistar. Mas algo tem que ser feito para além do querer em si, tem que ter ação. 

Alguns dias se passaram, estávamos no parque quando ela ficou muito tempo olhando o céu em um fim de tarde. Alguns minutos e as cores de quando ela começou já se misturavam e não eram mais as mesmas. Ela ao olhar às vezes sorria de leve. Fechou os olhos e repirou fundo, depois soltou o ar lento e veio até mim.

- Quantos agradecimentos e bons desejos cabem na distância daqui pra o céu? - perguntou Ana. 

Foi quando fiquei admirando a beleza e reverência da sua pergunta. Há gratidão no peito; há inúmeros sonhos e vontades; há uma confiança e respeito a Deus que está no céu. Então respondi: 

 - As medidas estão nas palavras, minha pequena. Basta falar e acreditar, então a magia irá aconteter. 

Ana sorriu satisfeita. Parecia tranquilamente contente com a infinitas possibilidades.

quinta-feira, 28 de março de 2024

Vooando

Na janela havia uma cortina com blackout devidamente fechada e um ar frio. Luci dormira por cima de um livro e esqueceu até o abajur aceso. De repente, ao se mexer, acorda. Suas costas doem muito e ela não acha bem uma posição então vira de bruços. Que alívio... Parece liberta. Alonga o braço pra o lado, apaga a luz do abajur e volta a dormir. 

Depois de horas decidiu se levantar. Se espreguiça de frente pra o espelho com o corpo pesado e asas! Ela ver asas! Fica atordoada, assustada olhando fixo pra o espelho. Depois esfrega seus olhos, procura o celular, ver a hora e se belisca. Apaga e acende a luz. Não... Ela não está dormindo! Como isso é possível? Asas de borboleta! Isso explicaria as dores nas costas. O que ela veste tendo asas? Cogumelo! Fumou antes de dormir... Então, bem, isso não pode ser real. Mas e se for? "São bonitas. Eu poderia tentar voar!" 

Nesse momento ela veste uma roupa e por cima de um top joga um casaco. Desce no prédio e vai andando pelas ruas; percebe que o sol mal clareou, não tem ninguém a vista. "E se eu tentar?" Tira o casaco, se sacode como se isso ajudasse a abrir as asas e corre abrindo os braços. Sente planar! Que sensação maravilhosa. 

- Agora que aprendi a planar é hora de voar mais alto! 

E ela bate as asas só em pensar que precisa bater então voa muito mais alto! É uma sensação de liberdade incrível com uma altura assustadora. A medida que pensa e se descobre, ela voa diferente. Segura de si, já nem tem mais medo de altura. Ela tem a sensação de que as asas só precisavam de um tempo pra se formarem, mas é a essência de Luci. Faz parte dela! E como é encantador voar! Em algum momento ela passa por tipos de árvores e enxerga as casas de cima que mais parecem maquetes; passa por outros animais e eles nem olham ela diferente... Nessa hora ela entende e exclama: "Eu também sou bicho!" Depois de um longo voo pela cidade ela decide pousar, voltar e faz isso perfeitamente e sorrindo. Entra pela janela do quarto e se debruça na cama contente. Mas sua prima bate na porta,, então se levanta de repente, destranca a porta e fica sentada na cama. A prima entra e diz: - Bom dia! Já estava preocupada, a tempos que batia na porta. A gente vai se atrasar pra ir a faculdade! Que cara é essa? Parece que teve um sono bom, hein? Tá com a cara boa. Mas se apresse, vou terminar de preparar nosso café. 

Luci sorri e diz que já vai descer. Enquanto a prima desce as escadas ela olha no espelho e ver que as suas asas não estão ali. Só  marcas nas costas como se estivessem guardadas. Então ela tenta encontrá-las: "Ativar asas!" e elas surgem lentamente se abrindo como uma flor desabrochando. A medida que as asas vão se abrindo vai surgindo um grande sorriso  em seu também. Maravilhada. "Vocês estão aí. Sim! Vocês aparecem quando são bem vindas. Quando eu decidir usar... Que bom. Que bom vocês existirem em mim. Usarei vocês mais vezes! Obrigada por aparecem no meu aniversário."

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Eu vou longe!

29 anos e o que tenho pra falar pra garota de 10 anos atrás? Que vou ser muito feliz com a vida fora do trilhos! Que eu deveria escutar a previsão da tia Nena: "Camila, tive uma revelação em um sonho com você, essa cidade é pequena pra ti, se prepare pra ir longe por outros lugares, outros países! Segue teu chamado, garota!"

Desde que ouvi isso de tia Nena fiquei encucada. Eu amo desenhar desde criança e minha mãe e avó são costureiras; pensei então em juntar os ensinamentos delas com esse dom que Deus me deu e ser estilista. Depois que ouvi isso dela, pensei que poderia certamente ter muito sucesso! Meu pai sempre achou uma bobagem de sonho, dizia que eu tinha que saber de onde eu vim, que nossa família é humilde, que quase não tínhamos dinheiro, mas temos as maiores riquezas que é saúde pra trabalhar, fartura em nossas colheitas que nos dão sustento com as barracas nas feiras e uma família amorosa com a benção de Deus. Meu pai é um homem bom mesmo, mas faz tempo que não sabe sonhar. 

Eu estudei, estudei muito, tive uma professora que olhou pra mim e acreditou no meu potencial; me forneceu direcionamento, internet e eu estudei ainda mais. Foi assim, que passei no vestibular que fiz em outra cidade do Ceará; fui pra Fortaleza. Amei o curso, morei numa república, fiz boas amizades; aprimorei meus desenhos, as costuras e tudo mais; sonhava muito com modelos desfilando com as roupas desenhadas por mim; mas a vida às vezes brinca com a gente, não é mesmo? 


Depois que me formei, comecei a trabalhar numa fábrica, as coisas estavam dando certo e meus pais estavam orgulhosos de mim. Sempre que eu ia visitá-los era uma boa troca, eu levava roupas mais bonitas pra cada um, ensinava um pouco do que aprendi a minha mãe e também aprendia macetes com ela; fazia a feira de frutas e verduras no quintal de meu pai com ele sempre muito saudoso, animado e curioso; ainda dava tempo de sair para encontrar algumas amigas. Era muito bom estar em casa, morar perto deles... Mas e aquilo que tia Nena falou? Não vai se cumprir? 

Estava meio desanimada com algumas coisas na rotina de trabalho e uma das minhas amigas me chamou para "espairecer", havia um circo novo na cidade. Lembrei de uma atividade do livro que eu estava lendo [O caminho do artista] onde sugeria que a gente marcasse um encontro com nosso artista, levasse ele pra passear. Pensei que ir ao circo poderia ser uma boa ideia, então fomos. E como foi bom! Entre um número e outro eu me pegava sorrindo, atenta, imersa... Sempre gostei de circo, mas parecia ter esquecido disso. Hoje, adulta, eu olhava pra eles pensando na ousadia, na criatividade, na coragem, no reinventar-se e viver da sua própria arte...

Como boa libriana com lua em peixes (coitada de mim com esse mapinha), fui levada aos olhos, ao manejo, a técnica, ao tudo mais de um equilibrista; admirando ele fazer tudo aquilo com diversão e desafios. Sebastian, o palhaço o apresentou. Sebastian... Lindo. Com seus olhos apertados que ao sorriam viravam duas belas linhas, a boca desenhada com traços finos que poderiam contrastar com a minha, sua pele parda parecia estar sempre bronzeada, o cabelo ondulado e fácil de bagunçar, seus olhos castanhos escuros, o corpo bem definido, forte, resistente e um sorrisinho que certamente despertavam tantos outros sorrisos sem jeito. Ele apareceu, fez seu número, ficou como assistente de palco, depois foi pra o globo da morte e na minha cabeça a noite toda desde que ele apareceu, só tinha ele. Só dava ele. A minha amiga percebeu e sorriu, disse que seria uma boa aventura pra minha vida que andava séria demais, mas ele nem se quer olhou pra mim. 

Pausa para pipoca. Eu amo aproveitar de um tudo então, tinha que ter a pipoca, o refrigerante, o churros e Sebastian... Sebastian estava lá. Comprei as coisas aos poucos, voltando várias vezes na fila só pra ver aquele sorrisinho. Ele sempre me retribuía e eu ficava naquela de "como ele é fofo" e "sou apenas mais uma".

Não tinha mais o que comprar e o intervalo acabou. Voltamos ao picadeiro. Será que meu coração tava tão ocioso ao ponto de ficar iludido assim? Admirado... Coitado. Por fim, foi divertido. Acabou o espetáculo e fomos em direção a saída com minha cara pintada de palhaça teoricamente porque minha amiga não parava de sorrir de mim com essas minha paixonite platônica. Até que ouço alguém me chamando e quando viro, era ele. Sebastian... O nome doce como sorvete na minha boca. Mas como sabia meu nome? Lá vem ele sorrindo com meu cartão roxinho na mão. Sim, o pagador das baganas e dos encontros. Havia deixado pra trás e ele achou! Não era um pilantra pra tentar usar. Ele era honesto! [Eu alimentando a paixonite.]


Se aproximou de mim, super educado e simpático, meio sem jeito, me entregou algo a mais. O seu número de celular anotado numa senha para o próximo espetáculo e foi aí que eu comecei a ser feliz de novo na minha vida. Foram meses nos encontrando, nos apaixonando, chamadas de vídeos, fins de semana e até encontro onde eu morava. Percebi que ele na verdade era tão tímido no início e foi se soltando com minha tagarelice. Como eu estava feliz! Muito. Mas nosso tempo estava acabando, o circo já estava 4 meses na cidade. Ele disse que não poderia me dar uma vida como eu merecia em grandiosidade, mas queria tanto que eu fosse com ele. Meus pais adoravam Sebastian, a turma do circo gostava tanto de mim, acabei fazendo amizade e figurinos novos, o que foi maravilhoso! Arrisquei brincar de aprender a escalar tecidos, dançando, virou meu exercício favorito; eu até brincava dizendo que era o auge da minha profissão: um tecido emaranhado no meu corpo me levando as alturas. Fiquei pensativa durante alguns uns dias... 

A verdade é que estou muito feliz e amo o Sebastian; contudo e minha carreira de sucesso? Foi pensando mais um pouco que lembrei do que meu pai me ensinou sobre aquele papo de ter saúde, do amor, das farturas no quintal e das barracas. Eu tinha que planejar algo muito bom... A minha geração muda tudo com essa internet... Bem, saúde eu tenho graças a Deus, amor também, o meu quintal é minha cabecinha com fartura de criatividade e minhas barracas serão...? Loja virtual! Sim! Decidi que faria dar certo! Organizei tudo e ao longo do tempo fui aperfeiçoando. A gente só pode aperfeiçoar o que já foi criado. Pois então.

Hoje viajo o mundo com o circo, com Sebastian! As roupas são vendidas para todas as cidades, estados e até pra outros países. Por onde andei montei rede de mulheres costureiras e suportes administrativos locais. Fazemos tantas roupas lindas! Isso tudo movimenta a economia da cidade com peças diferenciadas e uma qualidade fantástica! Faz também as mulheres expandirem os horizontes e mudar de vida com sua nova fonte de renda. É desafiador por vezes, mas é divertido!

Vez ou outra vou ao nordeste visitar meus parentes e amigas lá no Ceará. Eu amo tanto eles e também poder proporcionar uma vida com mais conforto pra eles e até pra meus irmãos menores. Por vezes bate uma saudade... Mas a gente foi criado pra cumprir chamados também. Se eu não tivesse me encorajado a sair, a conquistar tantas coisas com criatividade e a benção de Deus, aí sim, eu estaria entristecendo a todos. "Mufinando", sabe como é? Eu me preparo sempre pra ir longe, sem deixar pra trás as minhas bases e estou tão muito feliz com essa empresa se expandindo cada vez mais. Sigamos! 

[Sebastian além de lindo e amoroso, ainda é bobo. Diz que sou a musa acrobata dos tecidos do coração dele.]

terça-feira, 8 de novembro de 2022

A rainha sonsa

Ela é moça de passo curto porque a sua estatura também não permite que suas pernas sejam longas; o formato do corpo é tipo um violoncelo; cabelinho curto castanho com ondas e ela nem sabe que não deveria insistir em tirar essas curvas do movimento natural do cabelo dela, pra quê? É tão bonito quando ela gargalha e os seus cabelos dançam, os olhos apertam e choram de tanto sorrir. Ela é engraçada tanto quanto esquentada. Nem sempre foi assim, mas a vida foi ensinando ela a ser mais ousada e impulsiva. Será que os astros explicam essa mudança? Na verdade, precisamos de uma vida toda pra sabermos quem somos. A gente passa o todo tempo todo aqui nos descobrindo... Nos enrolando e nos descobrindo. Falando em enrolar, deixa eu contar uma. 

A moça bonita, inventou uma arte depois que não era mais moça. Sendo mulher, uma mulher experimente segundo ela, cismou que amar alguém é se prender e sofrer, então decidiu amar a vida e aproveitar de uma forma mais ampla. Não é coisa de relacionamento aberto, porque eu acho que nem combinado ela quer mais fazer. Ora, mais fácil e claro é o titulo de solteira. A mulher arteira, cujo nome é Flor, amacia os corações dos homens dispostos, iludidos com o sorriso dela e seu jeito educado de rainha sonsa. Acho que ela desperta curiosidades. Ela causa dúvidas, o que eles não sabem é que ela mesma não decide se vai ou se fica. Aliás, quanto tempo fica. 

Bem, em uma das suas viagens, numa das cidades mais coloridas do nordeste, no calor de vestir regata e alcinha, de franzir a testa mesmo com óculos escuros, Flor conheceu um guia turístico dançando numa roda de samba, logo ela que gosta tanto de liberdade, de passear. Ficou encantada! Muito sabida, aproveitou a dança! A partir daí, ela aproveitou as paisagens, aproveitou o cortejo e se aproveitou do homem, coitado. Iludiu o coração do viajante sonhador, o homem mais cheio de liberdades e com pé enfincado na teimosia de insistir que com ela queria mesmo era ficar. Fazer porto seguro, lançar âncora... Mas Flor foi embora pra suas terras e deixou o pobre homem, Geraldo, com o coração partido. 

Passou alguns meses e ele ainda procurava Flor, não deixando ser esquecido de tanto que mandava mensagens, ligava, enviava presentes; tanto contato fez que a mulher se assustou e se irritou a ponto de inventar desculpas e de não querer mais. Porém, chegou um dado momento que ele tocou no ponto fraco dela. O drama. A história trágica de um bom livro de romance. A compaixão, aproveitar cada minuto que resta na vida de um moribundo que deixará saudades e partirá menos infeliz. Perfeito. 

Geraldo, sofreu de doenças graves e quase se vai jovem, mas superou, eis que fazendo exames surgiu a suspeita de novo. Doente, talvez agora a morte finalmente o leve... E assim, como ela não faria os últimos desejos dele? Foi então que ela passou a alimentar a paixão do moribundo, marcar encontros, dar chances, deixar ele menos infeliz. Prometeu os céus e quase as terras numa mistura de "não quero que ele morra", mas se ele for, vai ser um final, de novela muito bom. 

Era tão preocupada e nervosa que o homem sentiu o gosto da paixão que a pena pode conceder. E há quem goste! Mas ele tão iludido, achando que aquilo já se transformava em algo bom, que ele queria mais era viver para estar com aquela mulher! Não perdeu as esperanças e foi atrás de outros médicos e mais exames. Eis que [eu não sei se a paixão, a compaixão, a fé, a sorte, o amor, as orações ou as macumbas do moribundo] nada mais ele tinha, se é que teve, fica aí o questionamento. 

Foi assim que Geraldo, saudável e feliz para enfrentar os quilômetros e ver novamente sua amada deu um tiro no próprio pé. Contou a ela. Pronto, acabou a paixão da farmacêutica [ havia esquecido de dizer a profissão dela]. Não havia remédio porque ele não precisava de um! Nem ela mais seria o seu remediar. Ela entrou em desespero: "E agora o que faço se ele ficou vivo? Achei que iria morrer!"

Vi Flor enrolada nas suas próprias invenções. Fiquei curiosa como ela iria se sair dessa. Pois, aconteceu que a criatura aproveitou uma mulher atrevida que passou no caminho, inventou uma história que só fazia sentido na cabeça dela e da outra que era comparsa das artimanhas dos amores soltos e o homem ficou questionando até mesmo a sua reputação! Depois disso ele se chateou e se afastou; mas não desconfiou do plano da amada, claro. 

Finalmente, ela ficou livre! Mas, logo começou a sentir falta de Geraldo. Ora vejam só! E o homem, abestalhado caiu na dela de novo! Foi assim que ela voltou a sorrir (inclusive da cara dele) e tomou o lugar que era de direito dela: a rainha sonsa e arteira, que nessas horas mais parece uma menina trapaceira!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Será que é ele?

Drielle era uma garota sonhadora e a procura de uma história de amor que lhe fizesse enxergar que "o amor é lindo"; mesmo diante de tantos romances tortuosos, ainda não havia perdido a esperança. Certo dia, estava no trabalho, quando precisou de um serviço e diante de algumas opções de contato um em particular chamou sua atenção. 

Um perfil lhe atraiu. Literalmente a foto de perfil de um homem. Ele tinha uma guitarra na mão, uma barba bem feita, um cabelo loiro escuro, o rosto um pouco maduro e uma postura de quem curtia o que estava fazendo, tocando. 

Foi mais além, procurou na rede social dele e tava lá: Músico, Advogado, Mestre, Doutorando... "Uau! Tudo que me atrai! Estudioso, deve gostar muito de ler, ligado a justiça, músico, bem apresentável e vai comprar um apartamento próximo a uma amiga! Desenrolado."

Entrou em contato com o rapaz em prol do serviço, ambos foram simpáticos um com o outro, marcou de se encontrarem para discutir a proposta, acabou indo para o lugar errado, tão empolgada que confundiu; falou com ele e eles já começaram a sorrir dali mesmo, a serem pacientes um com o outro ali mesmo; mudou a rota e foi ao lugar certo. Ao chegar ele estava lá esperando ela com roupa combinadinha, simples, sorridente, a cumprimentou. Ela querendo ver por trás da máscara o sorriso dele, ele próximo a janela tirou... Ela ansiosa, pra se mostrar também, fingiu que o calor a tomará  de suor e precisava tirar um pouco também. Conversaram e... Nada. 

Ele tinha tudo na teoria para atrair, mas ela não sentiu nada. Nada na voz, nada no sorriso, nada. Então era isso? Se empolgou a toa? Era. E como fazia tempo que não se empolagava com nada, gostou mais disso do que dele. 

Tem uma peça que falta... e talvez seja dela e nela mesmo. 

terça-feira, 29 de junho de 2021

Bus

Pela manhã no ônibus eu não costumo ficar no celular porque quando olho pra o lado é tanta gente assim que sinto uma inércia desconfortável; além de não ser bom pra vista; além de que é o momento que aproveito pra meditar ou debruçar a pensar em algo. Mas no geral, eu medito. Acho que a velocidade e trajeto do ônibus me permite isso. As coisas chegam na cabeça e já passam. Eu fico observando as pessoas com cuidado para não intimidar, claro. Especulo vidas, perfis e depois passa. Já estou olhando pra outra; ou outro lado, paisagem...

Tem algumas pessoas que chamam minha atenção. Por exemplo, a moça sem estampas. Ela era toda lisa... Tão clean que me chamou atenção na harmonia. Sem nada brilhante; ou seja, sem brinco, sem pulseira, anéis ou relógios. Cabelo bem penteado escuro preso como "rabo de cavalo"; uma blusa fina cor de marfim (mas nem dava pra ver absurdamente nenhum detalhe de um sutiã); um short bege com textura de linho; uma bolsa preta de alça longa, com a mesma textura de linho; uma sandália de calço marrom e faixas em cima azuis opacas com textura de linho novamente, porém em outro sentido. E só... Nenhum acessório a mais. Só o necessário. Os olhos semicerrados pelo sol e uma máscara branca que só cobria seu nariz e boca. Unhas feitas, mas naturais... 

Tão extremamente discreta que me chamou atenção. Eu queria fitar mais. Pensei: será que ela é virginiana? Será que a casa dela é minimalista? Será que ela é perfeccionistas que chega a ser ruim pra ela. Ela é chata? Ela está bem? Não parece ter um olhar tranquilo. Mas com um sol no rosto, quem parece? Será que ela fala contido; ou seria bombasticamente diferente ao conversar com os amigos?

Passou. Eu tinha que sair da minha cadeira e ir em direção a porta pra descer. Olha: Uma garota de 1,50 com uma calça preta, tênis preto e branco, blusa verde vem vivo, com um stitch bordado, cabelinho curto e como dizia a minha vó: com olhinhos "acatitados". Atentos e rápidos. Eu não lembro a cor da máscara.  Pensei: olha como ela caricatural também. Avessa a outra que vi a pouco; mas igualmente chamando minha atenção. Ela tem uma tatuagem no braço do studio ghibli... Chiriro em cima do dragão! Que legal. Deu vontade de assistir novamente com mais paciência.

Desci. Esperei o sinal fechar e atravessei.

Eu lembro mais dos detalhes que permito ver e das suposições de histórias do que olhar no celular passando por feeds e destaques do Instagram. As máscaras hoje cobrem sorrisos e alguns trejeitos, contudo, a gente aprende a ler de outras formas. Tem muitos personagens por aí.

Eu passei ontem no ônibus por uma parada que tinha uma mulher grandona com cabelo e pele escura e de cachos pequenos. Ela estava de fones grandes "JBL", olhos fechados e escorada no ferro da parada.

Pensei: ela está cochilando, orando ou curtindo muito a música? Pelo olhar/ ou falta dele deu pra ver pelo menos uma coisa: ela não estava por alguns minutos ali! 

Essa capacidade de silenciar e ouvir; ligar e desligar-se do mundo é extremamente gratificante. :) 

A missão faz morada

Eu não costumo gostar de acordar cedo a menos que seja pra viajar. Sou assustadoramente pontual e eficiente pra isso. Mochila pronta, cochilo dado, café tomado, roupa adequada e coração repleto.

Mais um dia que eu vou a um lugar desconhecido como missionaria. Eu fico com uma alegria genuína em ir cantando no carro com minha turma; chegando lá nos reunirmos pra determinar a logística, orar e finalmente nos espalharmos com as mãos e corações cheios.

Carrego com no peito Cristo em mim; nas minhas mãos alguns objetos e alimentos pra algumas pessoas; na minha mente a sabedoria do ouvir, acolher e apresentar a minha missão: somos alcançados, amados e salvos pela fé e pela graça de Cristo Jesus. Saio levando amor, não o meu; mas daquele que por meio de mim, cumpre sua obra.

Agora levo e recebo abraços, sorrisos e lágrimas. As vezes me seguro, pra não mostrar tamanha sensibilidade que chegam aos meus olhos; há uma linha ténue entre empatia e apropriação. Eu sinto muito...

Sinto muito a situação em que se encontram, sinto muito ao ver a sabedoria de quem pouco tem coisas, mas estão repletos de fé ou ainda sim, tem alegria; sinto por aqueles que quase desistiram; sinto pelos que necessitam de tanta coisa e sofrem injustiça e precaridade... Hoje eu vou sentir de novo o desgosto do caos do mundo e ao mesmo tempo o amor maior do mundo que é o de Deus; o de servir.

Vou cheia de intenções, achando que vou ensinar e na verdade tantos me ensinam com suas histórias que eu volto, contente porque contribui com um momento, ou dia bom; feliz porque eu cheguei representando algum sim de uma oração; porque fiz algo de bom pra outros.

Volto reflexiva, transformada a cada encontro, interferida por cada um. Volto mais ao básico mesmo: humana.


quarta-feira, 19 de maio de 2021

A louca dos signos e o homem sombra

- Posso saber seu signo?

- Não.

- Por que só mostra o ascendente? Eu quero saber teu sol! Não somente a tua sombra.

- Eu sou composto dela.

- Eu sei que há cores.

- Só a natureza desperta meu olhar por cores.

- Talvez seja uma natureza sua.

- O que?

- Ser naturalmente livre. Então me deixa te ver.

- Abraçaria eu sendo sombra?

- Sim, porque eu sei que ainda há luz.

- Não abraçaria só essa parte que vês?

- Não! Porque sei que tem mais. Eu te quero inteiro.

...

- Eu gosto do pouco que vejo; e pelas silhuetas e sutilezas, te quero mais. Quero-te todo. Vem.

- Se eu mostrar tudo você é capaz de fugir.

- Se você não se mostrar é capaz de eu, por respeito, desistir.

-Tudo bem...

- Sim, tudo bem. Vem. Se mostra aqui.

...

- Uau... Você é mais bonito do que eu pensava.

- Obrigado.

- Bobo, poderia ter se mostrado mais antes!

- E o que faremos agora?

- Agora quero te abraçar!

(Risos)

[Abraçaram-se]

- Bem, agora eu preciso ir!

- Como assim? Depois de me ver todo?

- Sim. Você também está me vendo; eu continuo te achando bonito...

- E por que vai embora?

- Porque você demorou; e o meu próximo bonde já chegou. Não posso perder esse!

- Mas...

- A gente se ver! Eu amei te conhecer mais; porém agora tenho que ir! Até mais ver!

- Até...

sábado, 8 de maio de 2021

O dom de Djenny

- "Me dá uma palavra!" E a mãe dela dava então Djenny saía e voltava com um poema onde tinha aquela bendita palavra. Trazia rimas e o encanto no rosto com uma expressão de: "Olha o que consegui escrever!" Djenny tinha mais gosto por palavras do que por desenhos, porque pra ela o desenho dela não era tão bonito quanto aquela brincadeira de descobrir combinações, estruturas e sentidos em um texto.

Uma vez chegou para sua mãe e mostrou um desenho e a mãe falou o quanto estava bonito; mas sem olhar bem; ela muito sagaz percebeu e disse: "Não está bom, você nem olhou direito, tudo você diz que está lindo e ainda não está; é pra melhorar." Parece que a pequena implicante preferia a verdade e orientação do que um elogio simplesmente "vago".

Fez aula de desenho, mas a sua prima que nem tinha aula desenhava melhor que ela; não sei se o professor dela não era muito bom, mas logo perdeu o gosto também. Sua letra não era bonita e sua mãe insistia que ela fizesse caligrafia. Ela se esforçava, porém as letras eram tão miúdas que dava a entender que ela queria se esconder.

Começou a escrever pra si; as vezes em forma de diálogo onde ela mesma se questionava e respondia. Separando ela quanto sujeita principal desnorteada e outra interrogadora e amiga. Costumava dar certo.

Chegou a adolescência e Djenny se apaixonou. O romance agora era seu novo hobby de escrita. Procurar palavras nos livros e usá-las ali, em intensas declarações. Ao longo disso começou a tentar roubar letras. Sim! Imitava o "H" de uma professora,  o "B" da avó, o "M" da mãe, um "F" de um primo; uma inclinação de escritos antigos e assim por diante. Tomou gosto, mas muito crítica, ainda escrevia timidamente com letras bem pequenas. Contudo, a intensidade delas sobressaia.

Algum dia, nesse contexto de novo romance, Djenny pegou um escrito pra o seu namorado e leu pra mãe ouvir; ela agora sim esperava um elogio, mas a mãe, recebeu as informações do texto assustada e pela expressão no rosto dizia: "Você sente tudo isso?? Cuidado..." Mas Djenny não queria mostrar os sentimentos em si, era a beleza da construção do texto! Apenas isso; e pela mãe não perceber, se sentiu um tanto envergonhada.

Ora se ela sentia tudo aquilo? Na verdade, ela gostava mais do que criava do que realmente as coisas eram. Até o namorado que recebia os textos/mensagens comentara: "Você quando escreve parece que sente tanto! É tanta saudade, mas quando eu chego, não encontro a mesma pessoa." E era isso mesmo. Porque o maior prazer era pegar aquele sentimento da falta e dramatizar, tornar bonito.

Na escola era elogiada pela professora de português pelos seus textos; no cursinho já nem tanto, o que lhe causou estranheza e desafio, começou então a estudar pra escrever melhor e conseguiu! Depois disso passou em um curso fortemente pela sua redação. A escrita nesse momento foi importantíssima na virada da vida dela; porém, ela só se deu conta do peso disso muitos anos depois.

Alguns anos a frente e ela não tinha mais a distancia do namorado; além disso havia tantas coisas pra estudar e a realidade tão insistentemente real a deixava sem vontade de escrever, pois agora, só saiam lamentações, revoltas ou textos académicos. Focou nos estudos e esqueceu desses encontros. Evitava escrever até para não correr o risco de alguém ler o que ela tinha por dentro. Foi então que certo dia uma amiga vendo sua amargura em relação a vida, lhe sugeriu e ajudou a criar um blogger. Como ela não tinha pensado nisso antes?

Nunca havia gostado de escrever diário, pois bem, um blogger era perfeito! Escrever livremente, virtual, anônima e ainda assim, com o segredo de um bom login e senha. A escrita voltou com uma enxurrada de sentimentos, a maioria ruins. Mas começou! Era isso que importava. Externar. Djenny foi percebendo algo mágico a medida que começara a escrever: ela não tinha estrutura ou rascunho, nem perguntas exatas e argumentos pré estabelecidos, nem ao menos sabia a conclusão, como também, não havia mais aquele dialogo nítido dela e amiga analista. Não! Ela fluía sem saber o fim! E no meio disso tudo encontrava; encontrava-se. Escrevia pra se ver, se ouvir e quando enfim descobria coisas de si entendia, acolhia, chamava atenção e orientava. "Agora que sei, o que fazer com isso?"

A escrita a transformou... Ou pelo menos, deixou registrado isso. Viveu uns momentos engraçados, interessantes pra escrever e assim fez; surgiu um novo amor a qual já havia até escrito um texto sobre ele sem nem o conhecer. Depois de um tempo, mais uma vez, a escrita esfriou. Somaram-se longos dias até que veio uma pequena história pronta. Decidiu escrever. Mostrou a um amigo e ele achou fantástica! "Como você é boa nisso!" "Parece um miniconto." Ela gostou da expressão; e a partir daí resolveu fazer outro blogger e nele outras histórias foram chegando. Umas com início, mas sem saber o fim, outras chegavam enquanto ela estava andando para o trabalho; outras quando ela via algumas imagens; quando olhava para as  personalidade de algumas pessoas; algumas vinha quando brincava com nomes; lendo livros... As histórias chegavam vez ou outra, ou raramente; mas vinham sem peso.

Djenny desleixada, ignorou o dom mais uma vez até conhecer alguns novos livros, alguns desenhos de letras e algumas dicas. Uma pergunta fez ela voltar a si: "O que você gostava de fazer na sua infância? Isso pode ser acrescentado hoje no que você trabalha e te deixar mais realizado; te alimentar." Gostava de arrumar casinhas (mini, pequenas e grandes); estabelecer espaços e decorar; gostava de criar artes; [E tornou-se designer de interiores] gostava de escrever! Escrever poemas!

- "Me dar uma palavra!"

- "Escritora".

Ouviu. Ela poderia ser também escritora! Comprometer-se a nunca abondar a escrita, porque ela não pode esquecer de si, do seu grande potencial criador e revelador de inventar respiros de boas histórias e reflexões das existentes. Uma vez Djenny leu uma pergunta intrigante: "Você preferia não falar, ou não saber ler?" [Isso é pergunta que se faça?] Ela ficou na dúvida. Contudo, optou ser pior não saber ler. Porque lendo ela adquire conhecimento; aprendendo ela pode escrever e a escrita sim, pode ser sua voz!

- Escreva!

Essa é a palavra que agora ecoa pra surgirem outros novos textos. 

quarta-feira, 28 de abril de 2021

Elisa na pandemia


Elisa Paverovisk veio de uma família miscigenada e passou a habitar no país de origem do seu pai e assim ficou mais restrita a quantidade de parentes. Morando no Brasil, percebeu que em cada canto dele um novo "país" se apresentava diante de tanta cultura misturada porém ao mesmo tempo, tão distinta. Seus pais missionárias permitiram que ela tivesse contato com as mais diversas pessoas e lugares, contudo aos 19 anos mesmo assim, se sentiu sozinha.

Elisa viajará pra um país distante do seu e acabou em meio a uma surpreendente pandemia. Assim, não pode voltar pra perto do seus pais logo e com seus amigos distantes também, agora era uma estranha em outro país. As missões tinham sido adiadas, as viagens canceladas. Era hora de descobrir afinal, como experimentar o prazer na solitude a qual não havia experimentado antes por muito tempo. Para isso, alugou um loft pequeno com objetivo de sair do hostel e transformar um espaço em um lugar de pertencimento. Podia fazer isso? Estudou para dizer que "sim!".

O espaço alugado era todo branco, com móveis em madeira escura e eletros brancos também. Tão sem graça que ela pensou em olhar pra uma tela primária, precisando da criatividade de alguém. "Foi colocado os cavaletes pra sustentar isso aqui e as bases, mas falta cor!" Na verdade faltava ela, ou alguém por lá. 

Elisa então pesquisou referências na internet, comprou tintas, pintou paredes de forma orgânica; coloriu alguns móveis (pediu permissão e sim, ela poderia!); fez um mural com cordas e fotos penduradas; espalhou luzinhas acima da cama; comprou confortáveis roupas de cama, fez tapete a mão com muitos pompons que entrará na sua rotina diária como a meta de uns por dia; comprou toalha de mesa, aproveitou vidros e fez de vasos; se encarregou de levar plantas pra casa; fez um cantinho terapêutico onde praticava meditação e yoga; lia bastante; comprou um retroprojetor pra fazer "cinema" em casa; começou a dar aulas de algumas coisas que sabia na internet para que assim pudesse além de ganhar dinheiro, se ocupar. Ela também inventou receitas, fez vídeo chamadas, elaborou presentes a mão e enviou com cartas pra os amigos, adotou um cachorro (Murilo o nome dele) e parou.


Depois de um dia em que estudou, fez coisas de casa, brincou com o cachorro, parou; pois lhe ocorreu algo: isso tudo é muito bom! Mas as pessoas... As pessoas são necessárias.

A troca de energias, de saberes de faltar palavras e as atitudes, gestos, feições já suprirem. O quão é importante elas existirem pra que possamos usar as nossas referências de ser... Na totalidade, no compartilhar. Não faz sentido ser só. Chorou.

Orou, pois lembrou que não estava. Tinha pra quem orar, por quem orar. Lembrou dos seres que habitavam nela. Sim! A eudaimonia que lhe traz a criatividade necessária pra tanta coisa; o censor que lhe crítica e desafia; o espírito santo que acolhe, encoraja, equilibra... Jesus. Sim. Não estava sozinha. Imaginou-se casa, além de tantos, tantas coisas boas moram ali! E é um convívio diário. Apreciou a solitude. Mas deixando claro pra si que, esse momento é importante, fortalecedor, amoroso e libertador; porém a obrigação de fazer disso algo rotineiro e normal, não o é.

Não devia normalizar a situação atual como "novo normal", porque não condiz com a esperança, o desejo, a nomenclatura, nem a ordem de como realmente deve ser chamada. É uma fase, fase muito ruim e deve ser lamentada e enfrentada como assim ela corresponde.

A integração entre as pessoas são necessárias... Os seres dentro de nós também são. O relacionamento com o outro é necessário pra gente ser alguma coisa!

Corou, chorou, agradeceu por tanto e por tantos; desejou bênçãos a todos como se todos fizesse parte de um grande corpo; sentiu-se triste e ao mesmo tempo um pouco melhor, pois a sua "humanidade" continuava ali firme e perseverante pra o bem de todos. A sua essência era boa e nem solitude com surtos a corromperam. O outro importa. Eu me importo. Somos um.

"Isso também passa." 

"Até que venha a nova Jerusalém, fazer o melhor daqui, força."

"Amém."




terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Hipotético

Meu ponto de saída, meu subterfugiu é você. Quando eu quero idealizar situações vem tu. Tu sempre vem para preencher as hipóteses do que seria se um dia acontecesse algumas determinadas situações que eu também crio; tu vem nas hipóteses do dia que eu iria me inserindo nos teus dias e vivenciaria para além de nós, um grupo, família, povo, viagens ou, passeios pequenos. 

Minha atração venusiana insistente faz tu me visitar em alguns gêneros musicais, em alguma pessoa que nem conheço na rua; na visita a um lugar que a gente nunca foi. A gente não daria certo, sabia? Porque talvez seja algo platônico, suspeito. Quero acreditar que não daria. Ah... Mas tu é meu vicio de hipóteses. Eu sinto saudades... Da fala, do jeito que me vês, que a gente conversa, que sente, que tu és. Fica cada vez pior porque tu fica cada vez melhor e isso também são hipóteses do pouco que já vejo. Contudo, fica nisso e é só isso. Tu mexe comigo. É fato, mas és meu hipotético e só. 

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Na terapia

- Eu posso iniciar a sessão falando sobre alguns papéis que exerço, pontos focais na minha vida, depois eu vou detalhando. Especificando cada um, pode ser? O que não pode falar em uma sessão de terapia não é mesmo? Pois bem... Vou contar as minhas versões sobre o que vivo; minha forma de ver o mundo com uma liberdade de falar como se já estivesse morta: livre de julgamento com Brás Cubas. 

- Sente-se morta aqui?

- Não... Na verdade não. 

- E por que a alusão?

- Começou bem, doutor... Bem... Deve ser porque ao contar sobre muitas coisas que eu passei, elas falem de alguém que não existe mais propriamente, só os resquícios e alguns atravessamentos. Possa ser também que haja uma espécie de morte para algo reviver. No caso, eu mesma. Possa ser também que morra as minhas versões tradicionais, "adequadas" e tentativa de ser sempre muito coerente e equilibrada. 

- O que a trouxe aqui?

- O desejo pela perturbação. 

- [riso sutil] Então você sente prazer nisso? O que seria a perturbação pra você? 

- Não sinto prazer nisso, sinto prazer quando transformo as porcarias em algo bom. Mas eu tenho que saber do que realmente se trata para transformar. Não se muda o que não sabe que se deve, ou pode mudar. "Até cortas os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta o nosso edifício inteiro." Já dizia também, Clarice Lispector. E eu quero saber o que posso transformar.

Eu gosto muito dela. Não da frase em si, mas da escritora; e gosto também de Manoel de Barros. Que "transver o mundo." Inventa palavras e novos significados e contextos. Clarice eu gosto pela subjetividade, pelo olhar importante, por me ver em tantas frases, por me estimular a descobrir o que tem nas entrelinhas. Estou muito referencial de literatura brasileira não é mesmo? Me chegou essas coisas aqui. Pela sua expressão devo continuar falando. Então vou falar o que introduzi. [...]

- É muito interessante não ser julgada. Não verbalmente, nitidamente, por quem agora sabe tanto sobre mim e saberá cada vez mais. Fora você, talvez só Deus e eu saiba tanto. Que liberdade você ser um estranho condutor! As vezes eu queria saber o que realmente você pensa. Quando os clientes me falam de móveis, eu algumas vezes estou pensando tanta coisa para além dos revestimentos; estou pensando sobre eles em si, os discursos. Tem dias também, que comento na minha cabeça. E você também deve falar isso consigo. Alguns adjetivos... O oculto e mistério me atrai. Eu queria saber algumas coisas do que passa na sua cabeça como "comentador". Mas isso custaria a minha liberdade de falar tanto... Pontua pra mim. 

- Pontua? Você quer encerrar já? 

- Não. Nem todo ponto é final, né? 

- Sim... 

- Eu gosto de reticências. Tem uma tatuagem que é um ponto e vírgula para dar alusão a continuidade da vida; contra suicídio, coisa do tipo. Mas as reticencias me atraem mais. É a fala cantada, arrastada do nordeste, é o pensamento no ar, ou processo dele; a continuidade mesmo. Eu gosto disso. Já faz semanas que eu venho aqui e parece que não vai ter fim. Falante demais. Tem horas que canso dessa centralização. Há uma linha tênue na análise, entre o encontro consigo, o foco em si mesmo e o egoísmo. Eu gostaria de mudar algumas coisas pra viver no coletivo, em relação aos outros. Eu comigo mesma me dou muito bem (risos) gosto da minha companhia, das minhas formações, de quem sou. A vida é boa, mas tão cansativa. Tem momento aqui esse "foco em mim" me cansa. Falar... Falar... Tornar monstros mais reais pra destrui-los.

- Você sente que podemos encerrar o tratamento? 

- É difícil isso também. Por que você é um encontro marcado comigo mesma; me estimula, me encoraja a enfrentar, a me permitir enxergar... Mas estou querendo ficar quieta sabe? Parece que agora estou procurando problemas. E a vida não é só isso. Eu acho. Encontra problemas e resolve, encontra significados e ressignifica, encontra a origem e tira ou planta melhor na raiz, tem vezes que pensar cansa,doutor. Questionar tanto. Tem coisas que você sente e precisa apenas ter consciência do que sente com aqueles estímulos. E filtrar. "Sinto-me" bem e então faz mais disso. Vive mais isso... Não quero encerrar ainda. Tão abruptamente. Mas isso é um aviso prévio que partirei. Irei indo... Entende? Claro que entende. 

- E por que não agora?

- Você me liberaria? (risos) Por que não quero deixar de vê-lo ainda. 

- Fale mais sobre isso (risos). 

- Eu gosto do que essa expressão típica de vocês permite (risos). Mas queria perguntar três coisas sobre você que não seja invasiva. Posso?

- É importante pra você? 

- Acho que sim. 

- Por quê?

- Porque você se torna mais real. Saber algo que vem de você em si e é da sua realidade mesmo. Não só do que eu imagino. 

- Você fica imaginando coisas sobre mim? Que tipo de coisa lhe vem?

- Eu vou poder perguntar três coisas? 

- Pode. Sabendo que eu escolho se vou responder. 

- Vou também escolher não responder sua pergunta sobre o que imagino, agora. 

- (risos) Tudo bem. 

- Você joga videogame? 

- [Expressão de espanto e riso] Sim.

- [Sorriso singelo] Bom... 

- Por que quis saber sobre isso?

- Porque... É algo diferente demais imaginar sobre você. 

- E o que minha resposta lhe causou?

- Sorriso. Você viu... A gente se ver na próxima sessão. 

- (Risos) Você a encerra? Achava que você queria saber três coisas.

- Sim. Mas não tudo hoje. Deixa eu me deleitar nessa agora. E sim, eu encerro por hoje (risos).

- Tudo bem. 

- Até a próxima! 

- Até. 




sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Amor e colorimetria

Deus deve ter feito Ana Caroline iniciando pela cabeça, fico eu imaginando... Cabelos cor de barro, meio alaranjado, meio vermelho, inspirado nos telhados das casas. Liso em cima e desceu brincando em movimento, fez ondas, o barro respingou na pele, que nem a cor definida ainda estava, então Ele deixou feito folha comum, branca mesmo, salpicada de vermelhos e marrons com um leve rosado do sangue que viajará por ela. Falando em cores, complementou o tom terroso com cor de folha, Ana nasceu com olhos verdes; narizinho astuto de quem se impõe e uma boca larga de quem não nasceu pra disfarçar sorrisos. 

Cabelos cor de telha, observo eu. Telhado dela. Cabeça boa vejo eu; boa pelos bons abraços dos seus neurônios com os pensamentos dela. Ana Caroline tem equilíbrio coerente em seu labirinto. Andava pelo mundo com a exploração de uma criança e a destreza de transformações de um adulto; andava leve, ressignificando coisas, as personificava em tratamento; um amor para o cumprimento dos seus propósitos; e no meio do caminho, tinha um André. 

André do telhado (ou cabelo) preto e ao sol azulado, diferente do cabelo de Ana, o seu já foi feito divertidamente cacheado, escondendo seus pensamentos mais mirabolantes, andava como se estivesse sempre apressado, olhar sagaz e vivo. André muito jovial olhava para as pessoas como se admira ideias. Pensava sobre, ficava articulando, fica empolgado pelas miudezas de cada um e se desinteressava muito fácil para quem só falava em grandezas de si. Ele amava o mundo. A imensidão dele e as criações. Gostava muito do natural, da natureza... E no meio do caminho de André tinha uma Ana. 

Ana dos olhos cor de folha, árvore com orvalho, verdes e brilhantes. Ana leve que pausou a correria de André. Ele não estava atrasado, ele estava no tempo certo pra encontrar a moça, mas por ela, André precisava olhar devagar. Ela acompanhou um pouco da pressa dele em viver e descobriram algo em comum, o desejo do desfrutar o que há de bom na vida, a visão para coisas do alto e o movimento estimulante do morar em uma Casa 08: a vivacidade e dom de transformar!

Transformar a casa de dentro, transformar a casa de fora, transformar casas alheias e tudo que puderem com sua imaginação e ação em melhorar. Ela uma psicóloga e artesã, ele um arquiteto e ilustrador. As artes se casaram, o Criador os uniu. Imaginem o que veio dessa união de calorimetrias? 

Amora Poema, tinha um teto cor de? Amora... Cabelos arroxeados raros de se ver, cachinhos unidos e esvoaçantes querendo abraçar o mundo, olhos cor de âmbar. Exótica e poética. Criatura de artista é arte. Arte cantada e contada é poema. Daí veio o nome dela e junto com ele uma vida de significados, que mais tarde, como seus pais, mudaria, pois ela encontrará a sua forma de contar e ver as coisas do mundo: "ressignificando". 

Imagem de Amora criada por IA. 



sábado, 23 de maio de 2020

Um presente

Eu estava estudando neurociências quando recebi uma mensagem na tela do meu notebook:

"Você recebeu um vale presente. O que você precisa saber: Será um dia de folga, com tudo pago, o tempo passará diferente pra quem não for com você e eles ficarão bem. Você não precisa se preocupar com absolutamente nada, descanse. Aceita?" 

Eu sorri sem acreditar. Aliás, duvidando. Será? Mas sorrindo e em tom de brincadeira respondi como se eu pudesse falar pra quem escreveu aquilo: "Aceito!" Fechei a janela que apareceu isso e fui dormir. Acordei com som de chuva, olhei pra cima e afastei a cortina da janela, gotas de chuva descendo lentamente; chovia forte, mas deu pra ver, que havia muito verde e uma claridade dizia que o sol já estava por ali. Fechei os olhos e fiquei ouvindo... Barulho de água forte escorrendo, não parecia ser pelas calhas, mas por riachos, estava tão bom... A cama me acolhia ali com um frio que vinha apenas do clima, sem ventilador, sem ar-condicionado. Espreguicei-me e me encolhi em meio a lençóis e edredons tão macios e alvos que poderia sugerir que estava nas nuvens. Percebi que eu estava nua. Confortavelmente nua deitada por entre as cobertas. 

Sentei na cama e me dei conta: eu estava em outro lugar. Da cama eu via uma pequena sala, mas não havia TV, apenas um sofá de madeira com almofadas volumosas estampadas com mandalas em tons pastéis, não tinha tapetes em lugar algum, nem precisava, o piso era de madeira, ao lado do sofá uma mesa lateral quadrada e com entalhes, um abajur rústico igual ao que estava do lado da cama que eu estava; do lado da luminária, caneta e papel a espera de escritos um vasinho de cerâmica branco com detalhes coloridos e uma plantinha nele. Na frente de tudo isso, uma bancada de cimento queimado e tampo de madeira; era como uma copa, alguns poucos armários, frigobar e louças brancas. Tinha uma jarra com água e flores cor de rosa seco em cima da bancada e um bilhete abaixo dela. No meu campo de visão também dava pra ver uma porta a direita e depois da copa e salinha, cortinas brancas que pareciam esconder grandes portas. Eu estava em uma espécie de chalé, com estrutura toda de madeira. Fitei o bilhete, levantei e fui até ele. 

"O café será servido na casa ao lado. Não se preocupe com a hora."  

Lembrei-me do: "Você não precisa se preocupar com absolutamente nada, descanse." Então eu estava vivendo o tal presente! Como eu cheguei ali? Não sei. Levantei enrolada em um lençol e fui a porta, supunha que ali poderia ter alguma roupa, ser o banheiro, e era. Ao abrir a porta vi que o banheiro era bem grande, o piso dele era diferente, uniforme em tom de bege, as paredes com pedras grandes em seus vários tons de marrons. Tinha várias plantas suspensas, a cuba da pia ficava em cima de uma bancada de madeira maciça e atrás dela um espelho grande, foi quando eu me vi. O cabelo solto, leve e macio, eu estava sem resquícios de maquiagem, mas não havia marcas firmes de olheiras, a pele parecia mais bonita, aproximei e vi que parecia ter passado por uma limpeza de pele, sobrancelha feita... Eu estava em um SPA? Não me lembro de nada! Meu rosto dizia que tive uma boa noite de sono e o resto do meu corpo também sinalizava isso. 

Por trás de uma cortina de conchinhas encontrei o chuveiro, ao fundo do espaço pra banho plantas e pedrisco no chão com uma parede mais atrás coberta de planta; a chuva estava caindo diretamente nas plantas, observei que nessa parte, não havia teto. Liguei o chuveiro além de a água descer, automaticamente começou uma música instrumental de gênero "profundo, envolvente e zen", eu não sei explicar. A água estava um tanto morna e ao lado da cortina havia um roupão branco e extremamente robusto e confortável só de olhar. Parecia feito com o mesmo tecido da manta da cama. Ao terminar o banho vesti. 

Fui pra o quarto e dessa vez eu vi perto da cama uma mesinha com uma pequena mala de palhinha. Lá estavam alguns pertences meus! Uma calça azul estampada de praia, uma regatinha de algodão branca, meus chinelos, entre outras coisas; arrumei-me empolgada, abri as cortinas e vi portas grandes de vidro para um jardim imenso que mais parecia uma floresta e uma ponte pequena logo na frente da varanda me ajudariam a atravessar o riacho que passava por baixo. Havia sim, águas correntes por ali, além da chuva! Eu não me molhei muito porque a ponte era coberta em cima; segui indo aonde a ponte levava. Lembrei: Estou sozinha! Radiantemente sozinha.  Sentindo bem e  amada... Quem será que me deu esse presente? 

Depois de umas poucas curvas (onde dava pra ver que havia outros chalés por ali perto) encontrei a "casa ao lado". Pequenos degraus de madeira me fizeram entrar nela. O que era pra ser a sala era um restaurante de madeira e vidro que possuía um formato que lembrava uma casa; lindo! Ali sim, tinha algumas pessoas, casais, famílias, crianças brincando em mesas menores, neném lambuzado de comida, mas as mesas eram espaçadas e eu não conseguia ouvir nada além da música e algumas risadas. As pessoas pareciam tranquilas e satisfeitas, eu estava encantada e fiquei mais ainda quando vi a mesa com um banquete! 

A mesa estava bem colorida e saborosa só de olhar. Tinha frios, folhados, cuscuz, frutas, sucos diversos, café, leite e um cardápio de comidas a mais a serem feitas. Separei o que eu comeria em uma bandeja que havia disposta para os clientes; levei a mesa e me sentei olhando aquela paisagem deslumbrante.  Quando eu terminei, uma moça veio falar comigo e me entregou um panfleto em papel reciclável que dispunha de algumas práticas disponíveis naquele lugar, juntamente com um mapa que me guiaria pra cada uma e seus horários de funcionamento. Lá havia: aulas de yoga, pilates, vários tipos de meditação, pintura, oficinas de artesanato, culinária, musicoterapia, hidroterapia, diversos tipos de massagem; salão de beleza, feirinha... Era um “mini mundo” bom, pensei. "Aqui é o céu"? 

Passei a tarde inteira entre Yoga, meditação, banho livre na piscina, massagem, aula de culinária em que aproveitei todos os meus sentidos sensoriais, dei boas risadas. Até a manicure dispunha de óleos essenciais para massagem nos pés e nas mãos, eu amei! Aprendi a fazer penteados afros também. Quase que saio tendo adotado alguma filha (risos). Fiz amizades e jantei com um pessoal "vibe" boa. Comemos pizza! Divinas pizzas de sabores inusitados que eu não sei o nome além de nomeá-las de: delícias estupendas! E tomamos vinho, brindamos, oramos em gratidão. Começamos brandos falando baixinho e depois já estávamos em conversas mais altas e sorrindo bastante. Dançamos também. Não sei explicar qual era o gênero. Era uma mistura dançante! Saias rodopiavam, calças erguidas, pés descalços ou, sandálias baixinhas confortáveis. Foi muito bom! 

Voltei ao quarto em estado de êxtase, sozinha e feliz. Amada. Foi como me senti o dia inteiro. Especial, cuidada. E foi lindo de ver que cada um parecia se sentir assim também. Tinha amor exalado pra todo mundo. Vinha daquelas plantas? "Oxigenamor"? Vinha dos céus nas gotas de chuva? Vinha da terra e alimento que nos sustenta? Vinha do sol, da noite que nos aquece e nos sombreia? Vinha de tudo. Vinha das criações do Criador. Era presente dEle mas é claro! A perfeição da sua natureza detalhada em tudo, detalhada e transmitida em nós. Essas pessoas não poderiam ser tão lindas em suas inúmeras expressões e aptidões se não tivessem um tanto de Deus em cada uma delas. 

Ahh... Foi lindo. E agradeci e agradeço por cada momento em que fui agraciada e amada. Eu não fiz nada pra merecer, mas Ele me apresentou um céu na terra pra eu saborear um pouco do muito que ainda está por vir. E já foi tanto! 


Voltei para o meu quarto/ chalé. Tomei banho sorrindo e lembrando. Fui para cama e adormeci prontamente. Acordei aqui. Aqui nesse mundo que tem um monte disso que vivi, mas de forma fragmentada e tão grandemente rara essa junção. Lembrei-me de uma música do Teatro Mágico que diz: "Tem hora que a gente se pergunta como é que não se junta tudo numa coisa só?" Há um mundo bom. Em algum tempo e lugar. Haverá um mundo apaixonadamente bom. 

sábado, 2 de maio de 2020

Ela ficou no passado

Aqueles papos na cozinha.

- Eu lembro dela. Lembro como ela era a uns anos atrás; mas lembrar dela a uns anos atrás é lembrar dela como é hoje.
- Isso não faz sentido!
- Por quê não poderia fazer?
- Porque as coisas mudam, Cidoca!
- Pois é... Mas eu não estou falando de coisas Zé, e sim de uma pessoa. 
- Pior! 
- O que você lembrar dela?
- Bem, as mesmas características que você falou. 
- Pois então, Zé! Mas isso que eu falei faz anos e você conhece ela de agora. 
- Mas por exemplo... Ela não gostava de ficar com meninas! 
- Isso é desorientação de se relacionar com alguém que faça sentido. 
- Mas está aí uma diferença!
- Não, porque antes ela também fazia e fez isso! 
- Certo, mas não foi com meninas!
- Isso só muda o "objeto" de desejo principal, no que diz respeito a aparência. 
- Mas já muda... 
- Certo. 
- E o que mais?
- Eu não sei.
- Ela não fala muito ainda, neh?. 
- Sim. E por isso mesmo não tem como você afirmar que ela não mudou!
- Estou falando do que ela mostra Zé!
- E quem disse que o que ela mostra é realmente o que ela é em si, Cidoca?
- Bem... 
- Sabia que tem algo que se chama ascendente? 
- Lá vem... 
- Chuta o que é, sua cabeça dura, debochada. 
- É o que se ascende na pessoa! hahahaha Que cresce nela.
- Hahaha palhaça! É o signo que se eleva no horizonte oriental no momento que a pessoa nasce. 
- E o que danado isso tem com  nossa conversa? 
- É porque assim... Não é o que a pessoa realmente é, entende? Como é o sol dela. Mas como ela se mostra aos outros. E deve ser isso que acontece com ela. A gente ver o ascendente. 
- Tu está usando um negócio viajado como argumento, pra defender o que você está querendo que eu acredite?
- É que eu sou de aquário. Hahahaha
- Haha e eu de Áries com num sei que lá em capricórnio! Sei nem o que isso diz, mas lembro que você já me falou. Ah! E eu acho que isso tudo não vem ao caso. 
- Lua e ascendente. 
- Zé, parou com essas coisas, mano! Tu fuma, neh?
- Hoje eu não fumei. 
- Bom pra seus pulmões, seu "féla". E voltando... O que eu quero dizer é que ela ficou no passado. Não se renova. É muito estranho isso. A pessoa tem um momento de acordar na vida, neh? Não vejo isso nela.
- Talvez seja o natural dela dormir. 
- Mas isso não existe! Uma hora dar uma agonia!
- Cidoca, na moral... Você não sabe se ela se aflige com isso, e simplesmente não conta.
- Pode até ser. Mas tipo... Isso não externa na vida dela, entende?
- Entendo. Preocupante. 
- É... 
- Mas Cidoca assim... O que a gente tem mesmo com isso?
- Tipo... Nada! Hahaha É que sei lá... Era minha amiga muito próxima, sabe? E daí não consigo mais ser e olhando assim de longe, estamos muito longe... Ela ficou pra trás. 
- Entendi... Mas, por que você não vai lá, se aproximando pra bater uns papos cabeça com ela, talvez ela se solte aos poucos e fale. 
- É que ela ficou desinteressante, entende?
- Ah vá! Esse papo todo pra tu falar isso? 
- Haha foi mal... Só viajei aqui pensando nela e quis compartilhar porque é estranho demais! Porque tipo...
- Tipo nada! Depois vem falar que eu é que fumo. Eu preciso da sua hora pra fazer o seu mapa astral e entender você melhor, sério. 
- Haha Zé tu é uma onda. 
- Cala boca desgrama hahaha, passa tua hora! 

domingo, 26 de abril de 2020

Mil melodias, uma só linguagem

Bem, hoje eu vou contar uma parte muito importante da minha história, filha; agora com  sua idade você já tem uma capacidade de entender e absorver o quão mágico pode ser o mundo, o que move algumas relações e que sim, grandes transformações palpáveis, mesmo depois de anos, podem acontecer! Acredite, isso que você está sentindo aí, vai passar e ainda terá uma história surpreendente no futuro pra você contar. 

Lívia, quando eu tinha 10 anos de idade uma enfermidade de cunho genético chamado ceratocone se agravou rapidamente e eu fiquei um tempo da minha vida sem enxergar praticamente, nada. Um tempo, assim... Mais precisamente anos! 8 anos. Eu só via tons e borrões. E isso só mudou em um período próximo a quando eu vivi a coisa mais fantástica e louca da vida, que foi quando eu me apaixonei por alguém. 

Bem, quando eu era adolescente, umas amigas e eu fomos a uma viagem no período das férias para um interior onde morava a avó da sua madrinha Ana. Murilo, irmão dela, também levou alguns amigos e logo juntamos a turma para nos divertirmos. Eu não enxergava ainda, então me descreviam alguns lugares e pelo cheiro, textura, sons, como também, pelas cores fortes, eu podia ver na minha memoria, na minha criatividade em montar cenários, o que estava a minha frente ali. 

Tomamos banho de rio no primeiro dia! O céu estava em tons de azul pincelado com rosa e ao meu ver, posso afirmar: estava lindo! [Risos] E foi nesse dia que encontrei o garoto que eu me apaixonaria, só tinha um detalhe: Ele não falava. A sua enfermidade era ser mudo. Mas ele ouvia e tocava divinamente bem. 

Nos apresentaram. Eu o senti num aperto de mão, no cheiro quando próximo (e ele cheirava muito bem!), no jeito que falavam dele, dava pra saber a "vibe". Ele começara a tocar e eu fiquei encantada, foi ruim disfarçar e ele certamente viu. Eu me perguntava: será que ele não só viu, mas realmente entendeu isso?

No outro dia seguimos comendo juntos, tomando banho de chuva, contando histórias sinistras em meio a uma fogueira improvisada; ouvindo músicas, cantando e ele com aquele violão que não saia da cola dele. Resolvemos dormir ali mesmo. Acampar. Fomos a casa da Vó Miranda, pegamos o que precisávamos e voltamos pra dormir pertinho de uma árvore, que ficava não muito longe, do rio.  

No meio da noite eu estava meio inquieta e saí para fumar. Pois é... Eu já fumei. Mas não repita isso, não vale nada! Era só bobagem da falta que fazia algo que bem, eu mudei com a terapia, filha. Mas isso é outra história. Continuando... Ele estava lá. Pertinho da fogueira ainda, eu sabia disso porque estava tocando. Eu me aproximei e não soube o que dizer. Como dizer... Ele percebeu, me tocou com duas batidas no violão diferentes e repetiu a freqüência no meu ombro. Firme, mais acolhedora. Então... Ele tocava algo e parecia falar. Sim! Ele falava por meio de melodias. Eu podia ouvir! Aqueles solos eram frases, as notas se uniam e formavam palavras e de repente naquela conexão louca, eu falei pra ele músicas que eu gostava de ouvir e ele tocou. Entendi que ele realmente estava em sintonia comigo e fluímos no mesmo ritmo por sei lá quantas horas... Riamos. E depois eu colocava em sinceridade e palavras o que eu estava vendo pelo meu coração e ouvidos, acontecer. Ele confirmava e opinava ao me enxergar, ler a coerência no meu corpo, me traduzir também e falar por meio do seu violão. 

Ah Lívia... Foi lindo! E a gente acabou se tocando algumas vezes para sentir algumas certezas de coisas que a gente não sabia dizer, a não ser por meio desse instrumento que era nós mesmos em linguagem corporal. Foi no desdobrar disso que a gente se beijou e continuou, e eu vi o sol nascer, ao sentir o calor do dia nas minhas costas. Amanheci com aquele garoto que nada falava objetivamente, mas muito me dizia.  

Nos recolhemos antes que os outros acordassem. Continuamos o nosso passeio com a turma mais dois dias e deixamos escapar a nossa comunicação. Nossos amigos ficaram espantados, porque eles não entendiam como poderíamos tão bem nos comunicar quando sozinhos e daquela maneira. Depois desses dias, voltei para capital. Ele ficou... E se tornou aquele amor de verão, sabe? Mas continuou pulsante guardado com carinho dentro de mim, porque aqueles dias tinham sido mágicos! Afinal, a gente se permitiu ir além do que poderíamos realizar com nossas limitações físicas, porque não fomos restringidos a isso. O sensorial, a mente... essa sensibilidade, o querer, nos permitiu tudo!

Um ano depois disso, realizei uma cirurgia de transplante de córneas, que me trouxe a visão por meio dos olhos novamente! Que felicidade!! Antes eu era professora de dança! E depois disso, você já sabe: Entrei para companhia de teatro e faço cenários! Como amo isso e tantas coisas mais que agora posso enxergar... 

Montando uma peça, certo dia, olha só a coincidência, ouvi alguém tocar divinamente bem para umas cenas, e era ele. Ele me reconheceu! E pelo olhar feliz dele, como também as duas batidas firmes e acolhedores, a gente se cumprimentou e sorriu largamente.
Daí surgiu uma nova história, linda e foi aí que depois veio você. 

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Somando dois não dá um

Arlete é uma moça bondosa, cheia de amigos e com o amor pulsante dentro de si, mas sofre com um problema crônico de dualidade. Bem, isso quem disse foi um psicólogo, uma astróloga, uma  mãe de santo, a líder de jovens da igreja, alguns amigos, a filosofia e o que mais ela buscou que pudesse falar sobre ela, além dela mesma (é claro).

A questão é que se isso fosse realmente um problema, era na visão dos outros, pois ela gostava da diversidade desde quando era criança. Por exemplo: Ela brincava que era mãe de gêmeos de sexos opostos, porque não conseguia querer ser apenas mãe de um por vez e essa coisa de decidir se seria menino ou menina, por que não ser logo mãe dos dois? Cor preferia? Porque somente uma? Ela amava a coleção de cores completa! Não dava pra ter uma amiga somente também; era muito mais legal ter várias! Profissão... Bem, já falavam disso quando ela era criança e ela experimentou brincando de muitas delas; gostava de ser maquiadora, vendedora, médica, construtora, decoradora, pintora, professora, atriz e o que sua imaginação viesse trazer.

Sua mãe sempre a elogiou por sua criatividade; se mantinha ocupada com o balé, com as aulas de basquete, com os encontros de rodinhas de amigos pra aprender violão; pintava o próprio cabelo, cortava também; cantava; escrevia, calculava... Era repleta de variações e enérgica demais!

Mas chegou um dado momento em sua pré-adolescência que a mãe começou a falar sobre individualidade, singularidade e absorver isso foi muito difícil. Ela aprendeu a teoria. Contudo, pra começar: ela dividia o quarto com dois irmãos, seus pais tinham duas casas porque preferiram morar longe um do outro. (Eles se separaram, depois descobriram que ainda se amavam e queriam continuar, porém a rotina era muito problemática então resolveram viver assim). Com esses exemplos, ela não via como algo ou, alguém sozinho seria bom. 

14 anos recém completados e ela sentiu vontade, finalmente, de beijar alguém. Em meio ao seu cotidiano surgiu um sentimento diferente de tudo que ela viverá: Paixão. Por um menino. Ela se gloriou por isso; gostava de meninos, apenas. "Olha só! Não sou tão problemática assim!". E mais, gostava de apenas um rapaz em especial. "Aiinnn... Ele é clássico, fala baixinho, escreve carta, educado, se veste bem, discreto, cheio de sensibilidade, força e objetivo. " Com esses pensamentos, e sentimento reciproco, o romance começou. Coisa linda, roteiro de novela das 18h. Ela apaixonada, escrevia lindamente pra ele, eles moravam distante e poxa... Aquela novela mexicana de saudades. Mas, Arlete tinha aquela característica lembra? Ás vezes quando se aborrecia de tantas perguntas ela culpava o signo: "Não tenho culpa se nasci sendo de gêmeos!"  

Conheceu um garoto na escola, "Ele é tão imprevisível, divertido, espalhafatoso... Ele dança! Nossa ele sabe jogar vôlei; vai me ensinar cálculos. Ele é muito prático. Engraçado; forte, esportivo..." E aí ela se apaixonou. O problema foi que ela não deixou de estar apaixonada pelo outro. Como pode? 

Ela ficou com os dois, mas a sua consciência falou que era errado... Mentira. Poderia ter sido isso pra história ficar mais bonita, mas o que aconteceu foi que ela só não gostou muito do beijo de um, e também não se sentiu segura porque ele não era discreto e sairia contando pra todo mundo, então resolveu ficar com apenas um. Mesmo sabendo que ela queria os dois. "Não dar pra somar agora, não é mesmo?" 
Anos se passaram e a história se repetia; porém ela nem se dava conta de ser algo com ela em si, afinal havia sentido pra tudo aquilo: Não havia encontrado ainda a tampa da sua panela. 

20 e poucos anos, ela se deparou com algo bem estranho: Estava gostando de dois, novamente, mas o curioso era, não conseguia ver muita diferença entre eles... E agora? Não tinha dilema! Não conseguia comparar; não conseguia ver quem vencia isso, não conseguia escolher, porque... Queria os dois! Poderia somar os dois agora? Seria essa a solução? Achar um que fosse tipo esses dois? Que já são tão parecidos... "Quero a fusão, e estou extremamente confusa com isso!" 

Ela se relacionou com os dois e isso lhe causou problemas internos pelos seus questionamentos sem respostas; foi então que buscou alguém que fosse a soma... E nada. Ela falou com os dois, se ela poderia de repente, ficar com ambos. Eis que veio a pergunta de um deles: "Tudo bem se você, do mesmo modo, não for suficiente pra mim e precisar arranjar outra para completar? Não a mim, no caso, e sim, meu desejo. Ou, completar você que não pode pra mim ser inteira?"

Arlete desmoronou! Em mil pedacinhos a mais... Escutar algo assim? Caiu a ficha e ela toda. Havia um problema! Ela acabou ficando sem os dois rapazes claro, porque não se pode somar os dois pra virar um e depois dois. "Pessoas não se fundem! É isso. Individualidade..." Pensou. Finalmente algo clareou em seu ser. A sua individualidade estava ferida e descoberta. Chorou como uma criança que vem ao mundo não sabendo o porque, mas cheia de sentimentos da sua história vivida e uterina. Chorou por se ver sozinha nisso, na sua estranheza de ter um problema que cresceu com ela e ela nunca tinha visto isso.  Não bastou nomearem, tentarem explicar... Não. Às vezes a gente só entende quando leva um soco no meio do ego desordeiro e infernal que pulsa. Foi aí que ela viu e sentiu, acompanhada de dois gestos (uma mão no coração e outra, na cabeça) falou: "A dualidade está aqui".