quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Amor de varanda

Cheguei em casa a noite muito cansada do trabalho. Estacionei o carro abaixo de uma cobertura do lado de fora, fui caminhando chutando pedrinhas na areia até chegar no alpendre de casa. Apenas três degraus, não resisti e sentei. Escorada na coluna de madeira ao lado fiquei olhando tudo aquilo e pensando: meu refúgio. 

A minha casa fica em uma pequena vila cheia de outras casinhas camufladas em nossa floresta particular. É tão tranquila que parece que eu moro sozinha para além das paredes desta casa. Os caminhos se iluminam pelos acessos de cada uma organicamente bem distribuídas. São bem rústicas. Todas em madeira. São lindas e cada uma com sua particularidade. A minha por exemplo, tem um caramanchão grande com com um sofá de madeira abaixo e bastante almofadas; ao lado tem outro com uma pequena mesa e quatro cadeiras. Um lugarzinho pronto pra se esparramar e outro que convida a uma refeição do lado de fora, ou pra jogar com amigos. Além desses espaços, tem várias lâmpadas espalhadas na área externa que causam a impressão que pode ter uma festa a qualquer momento, é tudo lindo e extremamente acolhedor. 

Que bom que chegou o final de semana. Chega de plantões esses dias. Estou faminta e com vontade de beber um bom vinho. Ligarei então pra algumas amigas...

Hoje é unânime. Aquele dia que ninguém pode. Nesse momento não é bom morar distante do centro da cidade. Eis que ouço baixinho, mas bem audível e prazeroso, o som de violão. Levanto me guiando por ele. Só um acústico e dedilhado show solitário, pelo visto agora tenho um novo vizinho artista. 

Vou indo em direção ao som, quando tropeço numa raiz, xingo e caio. O suficiente pra assustador o tocador, fazer ele parar de tocar e estreitar os olhos para me ver. Que ridícula estou e lá vem ele até mim. Sorri ao me ver limpando as mãos na calça e minha roupa branca ficar marrom, além de ver também, minha cara de idiota, claro. 

- Oi! Você está bem? 

- Sim. Foi só um pequeno tombo. 

Ele me deu a mão que estava livre pra eu me levantar melhor já que estava de joelhos. Aceitei e ao levantar devo ter feito uma cara horrível de dor, porque ele arregalou os olhos e esperou eu falar. Meu pé deve ter torcido e estava sangrando um pouco. "Droga". Comentei algo com ele, e foi então que me ajudou a chegar em casa. Queria chamar uma emergência e eu não permiti. Disse que teria como me cuidar, eu só precisava, bem, pegar uma maleta naquela escada. Assim fiz. Notei ele suando frio e dessa vez fui eu que perguntei se ele estava bem. Falou que fica meio tonto ao ver sangue, mas que estava tentando se manter firme ali e não focar naquilo. Eu sorri. Aquele homem não poderia mesmo ser acostumado com urgências. Cara de "rapaz de apartamento" que no máximo coloca um adesivo num pequeno corte e olhe lá. Mesmo assim se manteve em prontidão ali. Gentil. 

Coloquei uma bolsa de gelo no tornozelo e fiz um pequeno curativo no joelho. Ele ofereceu ajuda em várias coisas, mas a última me surpreendeu: "você está com fome?" respondi que sim. Ele sugeriu uma pizza e perguntou se eu poderia tomar vinho. Ah... Isso foi como música para meus ouvidos! Assenti. Ele então finalmente me cumprimentou, disse seu nome e perguntou o meu. 

- Ótimo... Eu vou em casa, pedir a pizza e colocar o vinho pra gelar um pouco. Ah, se precisar de algo, só chamar... Volto logo mais, Ângela.

Ele foi saindo e eu me peguei com um sorriso leve nos lábios. Ao entrar de fato em casa, fui a um quartinho, peguei as velhas muletas que já usei em outra época e fui tomar um banho. Vesti um vestido leve por ser mais fácil e depois coloquei um casaco por cima. Não demorou muito e Murilo tocou a campainha e lá estava ele... Tão jovem... Eu aqui com meus trinta e poucos admirando um novinho na porta com um vinho na mão, uma pizza na outra e um violão nas costas. 

- Terei show particular? 

- Se assim quiser... Posso fazer. Você parece que se vestiu a altura de um dos bons. Terei que me esforçar mais. Onde posso colocar essas coisas? 

- Nessa mesa, por favor. 

- Tá bom... Você conseguiu muletas tão rápido. Já havia se machucado antes?

- Foi, mas também, "faz parte" da minha profissão. Tento ter coisas disponíveis caso aconteça alguma urgência. 

- Você trabalha com o quê?

- Sou médica cirurgiã e você?

- Sou professor de história e músico. 

- Hmm...

- Conte-me sua história então.

- Prefiro tocar e cantar a dos outros... 

(Risos) - Não parece ser um garoto tão resistente pra se abrir assim. 

- Não sou, depois um vinho. 

- Hmm... Vamos começar os trabalhos então! 

- (Risos) Sim. 

E foi assim que começou, na minha varanda, a noite mais gostosa da minha vida e um amor improvável. 

P.S: Ao meu amor Murilo, é chegada a hora de cantar ou contar, mais uma vez a nossa história. 

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