segunda-feira, 20 de abril de 2020

Somando dois não dá um

Arlete é uma moça bondosa, cheia de amigos e com o amor pulsante dentro de si, mas sofre com um problema crônico de dualidade. Bem, isso quem disse foi um psicólogo, uma astróloga, uma  mãe de santo, a líder de jovens da igreja, alguns amigos, a filosofia e o que mais ela buscou que pudesse falar sobre ela, além dela mesma (é claro).

A questão é que se isso fosse realmente um problema, era na visão dos outros, pois ela gostava da diversidade desde quando era criança. Por exemplo: Ela brincava que era mãe de gêmeos de sexos opostos, porque não conseguia querer ser apenas mãe de um por vez e essa coisa de decidir se seria menino ou menina, por que não ser logo mãe dos dois? Cor preferia? Porque somente uma? Ela amava a coleção de cores completa! Não dava pra ter uma amiga somente também; era muito mais legal ter várias! Profissão... Bem, já falavam disso quando ela era criança e ela experimentou brincando de muitas delas; gostava de ser maquiadora, vendedora, médica, construtora, decoradora, pintora, professora, atriz e o que sua imaginação viesse trazer.

Sua mãe sempre a elogiou por sua criatividade; se mantinha ocupada com o balé, com as aulas de basquete, com os encontros de rodinhas de amigos pra aprender violão; pintava o próprio cabelo, cortava também; cantava; escrevia, calculava... Era repleta de variações e enérgica demais!

Mas chegou um dado momento em sua pré-adolescência que a mãe começou a falar sobre individualidade, singularidade e absorver isso foi muito difícil. Ela aprendeu a teoria. Contudo, pra começar: ela dividia o quarto com dois irmãos, seus pais tinham duas casas porque preferiram morar longe um do outro. (Eles se separaram, depois descobriram que ainda se amavam e queriam continuar, porém a rotina era muito problemática então resolveram viver assim). Com esses exemplos, ela não via como algo ou, alguém sozinho seria bom. 

14 anos recém completados e ela sentiu vontade, finalmente, de beijar alguém. Em meio ao seu cotidiano surgiu um sentimento diferente de tudo que ela viverá: Paixão. Por um menino. Ela se gloriou por isso; gostava de meninos, apenas. "Olha só! Não sou tão problemática assim!". E mais, gostava de apenas um rapaz em especial. "Aiinnn... Ele é clássico, fala baixinho, escreve carta, educado, se veste bem, discreto, cheio de sensibilidade, força e objetivo. " Com esses pensamentos, e sentimento reciproco, o romance começou. Coisa linda, roteiro de novela das 18h. Ela apaixonada, escrevia lindamente pra ele, eles moravam distante e poxa... Aquela novela mexicana de saudades. Mas, Arlete tinha aquela característica lembra? Ás vezes quando se aborrecia de tantas perguntas ela culpava o signo: "Não tenho culpa se nasci sendo de gêmeos!"  

Conheceu um garoto na escola, "Ele é tão imprevisível, divertido, espalhafatoso... Ele dança! Nossa ele sabe jogar vôlei; vai me ensinar cálculos. Ele é muito prático. Engraçado; forte, esportivo..." E aí ela se apaixonou. O problema foi que ela não deixou de estar apaixonada pelo outro. Como pode? 

Ela ficou com os dois, mas a sua consciência falou que era errado... Mentira. Poderia ter sido isso pra história ficar mais bonita, mas o que aconteceu foi que ela só não gostou muito do beijo de um, e também não se sentiu segura porque ele não era discreto e sairia contando pra todo mundo, então resolveu ficar com apenas um. Mesmo sabendo que ela queria os dois. "Não dar pra somar agora, não é mesmo?" 
Anos se passaram e a história se repetia; porém ela nem se dava conta de ser algo com ela em si, afinal havia sentido pra tudo aquilo: Não havia encontrado ainda a tampa da sua panela. 

20 e poucos anos, ela se deparou com algo bem estranho: Estava gostando de dois, novamente, mas o curioso era, não conseguia ver muita diferença entre eles... E agora? Não tinha dilema! Não conseguia comparar; não conseguia ver quem vencia isso, não conseguia escolher, porque... Queria os dois! Poderia somar os dois agora? Seria essa a solução? Achar um que fosse tipo esses dois? Que já são tão parecidos... "Quero a fusão, e estou extremamente confusa com isso!" 

Ela se relacionou com os dois e isso lhe causou problemas internos pelos seus questionamentos sem respostas; foi então que buscou alguém que fosse a soma... E nada. Ela falou com os dois, se ela poderia de repente, ficar com ambos. Eis que veio a pergunta de um deles: "Tudo bem se você, do mesmo modo, não for suficiente pra mim e precisar arranjar outra para completar? Não a mim, no caso, e sim, meu desejo. Ou, completar você que não pode pra mim ser inteira?"

Arlete desmoronou! Em mil pedacinhos a mais... Escutar algo assim? Caiu a ficha e ela toda. Havia um problema! Ela acabou ficando sem os dois rapazes claro, porque não se pode somar os dois pra virar um e depois dois. "Pessoas não se fundem! É isso. Individualidade..." Pensou. Finalmente algo clareou em seu ser. A sua individualidade estava ferida e descoberta. Chorou como uma criança que vem ao mundo não sabendo o porque, mas cheia de sentimentos da sua história vivida e uterina. Chorou por se ver sozinha nisso, na sua estranheza de ter um problema que cresceu com ela e ela nunca tinha visto isso.  Não bastou nomearem, tentarem explicar... Não. Às vezes a gente só entende quando leva um soco no meio do ego desordeiro e infernal que pulsa. Foi aí que ela viu e sentiu, acompanhada de dois gestos (uma mão no coração e outra, na cabeça) falou: "A dualidade está aqui". 


quinta-feira, 2 de abril de 2020

O rapaz dos intervalos

Téo apareceu quando Vanessa estava em um momento de mudanças mais bruscas da vida, quando estava acelerada em um gosto enlouquecedor de viver e pôr em prática alguns devaneios. Foi a primeira vez que ele apareceu. Era virtual. Ela só via escritos dele, algumas fotos (mais dos lugares que ele esteve do que dele mesmo e ao prestar atenção em fotos conceituais (que por si só, já costumam agradá-la) sendo a maioria em preto e branco; ficou curiosa: "Quem se esconde por trás da câmera? E por que lhe falta cor?". 

A conversa fluía entre eles, sempre; desde o início. Entendiam os sarcasmos, as ironias e as bobagens um do outro. Ela se apresentava muito expressiva, sagaz na linguagem, curiosa e mística; ele zoeira, atencioso e sincero. Diante de conversas empolgantes, resolveram se encontrar pessoalmente, sair pra comer.

O primeiro encontro foi do tipo detalhista. A cor das unhas foram notadas, o desgosto por vinagrete na comida dele também, as vozes, o jeito que mexe nas coisas... E como sabiam que estavam sendo observados, se atrapalhavam, entre realidade x expectativa. Queriam mostrar o real, mas até que ponto?

[As vantagens de conhecer alguém sem amigos em comum, é que pode haver um grande perigo ou para os loucos, um grande atiçar de curiosidade, podendo ser também, de criatividade, visto que você pode escolher sobre: "Quem você será hoje? Qual a versão melhor da sua própria história ou, como você quer que ela, fantasiosamente, se pareça?"]

Quando saíram do restaurante ele a abraçou como se fosse se despedir e tentou chegar mais perto para beijá-la, foi então que a garota mudo o roteiro, pois estava muito óbvio a expectativa e ela era um pouco do contra. Ele entendeu prontamente e sugeriu que fossem andando para a casa dela que era um tanto perto, pois assim, teriam mais tempo para conversar, ir caminhando e sem ninguém para atrapalhar o desenrolar da história.

Feito menino e como se fosse pequeno, subiu numa divisória do estacionamento que estavam passando na calçada, ela, mais menina ainda, sentindo-se menor do que já é em estatura, imitou, subiu também, mas ele desceu, e ela quase caiu. Quase, porque ele a segurou. Segurou e dessa vez eles se beijaram. O tempo parou ali, deu pra ver, naquela degustação de um começo bom. Foi ele quem chamou ela de volta: "Vamos. Não podemos ficar aqui assim..." Vanessa como uma "garota bem levada", sorriu e pegou na mão dele para continuarem. Ele expressou o quanto estranho era estar de mãos dadas tão rapidamente com ela, já a moça, pouco estava se importando. Eles conversaram o caminho inteiro, ele a deixou na frente de casa, se abraçaram e se beijaram bastante e foi a partir disso que uma rotina acelerada de paixão começou. 

Com uns dias se passando teve histórias em restaurante, bar, praia a noite, cinema, casa... Era divertido, casual, rir a toa, até que falaram mais sobre as seriedades da vida. Isso assustou, Téo foi indo e ela o deixei ir. Não demorou muito, ela seguiu dando uma continuidade da vida como realmente era: um novo recomeço; pensou: Foi só um rapaz num intervalo. 

Anos se passaram e eles nunca mais se viram pessoalmente, tornou-se virtual de novo. Eles lembravam do que havia acontecido nitidamente com carinho, mas pouco falavam sobre. Passou. Até que chegou um dia em que finalmente resolveram se reencontrar, enfrentar algo; talvez, matar a curiosidade e por em provas a si mesmos. ["Somos só amigos sem mais intenções realmente?] Dessa vez Vanessa convocou e ele aceitou.  

Ao se encontrarem, pareceu comum e estranho se verem, afinal conversavam tanto pelo celular que não parecia ter passado anos. Mas ao mesmo tempo, estavam diferentes, pois os anos dão acabamento em muitas arestas. Foi nítido, o quanto ficavam perto mostrava que queriam um pouco mais. Depois Téo revelou e Vanessa também foi recíproca: Queriam ter se abraçado mais, mas poderia ser estranho querer isso de um amigo virtual.  

Alguns meses se passaram e novamente chegou um tempo em que a vida dele estava em um momento de transição, a dela também e foi então que se esbarraram de novo, nos intervalos. Começou: Restaurante, cinema, casa, bar, casa, casa... O roteiro ficou diferente. Conhecer a família, os amigos, as casas, os receios, os sonhos, não esconder mais o que sente e então foi dessa vez que Vanessa se assustou, alguns princípios dela haviam mudado, pra ele acompanhar, seria se refazer em alguns aspectos e ela não queria que ele pagasse pra ver, pois não era garantia que ela esperaria e realmente se satisfariam; ela se assustou e se deixou ir, pra longe; começando de novo, do mesmo lugar, mas modificada pelo intervalo. 

Voltaram a conversar, virtualmente de novo. Melhor. Duas vezes em pouco tempo de muita realidade, não deu certo. Por que? Porque eu acho que as histórias curtas e intensas a gente deve preservar enquanto está bom. Isso digo eu, partindo do ponto que me coloquei como roteirista. 

Mas posso confessar? Vejo nela saudade dele, hoje. Isso mesmo. Não para se ver pessoalmente, ou algo mais. É coisa dos intervalos mesmo. Ela está em um e ele fica pulsando; contudo, agora com total convicção: Vanessa está com saudade do seu amigo virtual, o rapaz dos intervalos. Na verdade, a vida sempre tem muitos intervalinhos, não é? Ou será que ele passou a ser parte de uma frequência da vida dela e ela não reconhece isso? Ah não sei... Apenas afirmo que ela está com saudades do amigo virtual dela, é isso; e diante do histórico de realidades que foram de amizade colorida, ela vai dar continuidade a virtualidade, por que? Eu já expliquei sobre as pequenas boas histórias. 

"Vou convocá-lo pra gente jogar alguma partida on-line!"

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Lua no aquário

Nota: Baseado em uma pisciana com lua em aquário e asc em peixes; seu encontro com outro pisciano (cuja mapa não sei) e também, com uma libriana que tem lua em câncer, e asc em aquário.  

Ela nascerá numa cidade do litoral, pela sua cor, já veio bronzeada; seu cabelo é tão suave quanto uma boa brisa, cor de mel (até ela inventar mudar de cor). A menina deu o ar da graça, em seu nascimento, iluminada pelos primeiros raios de sol de uma manhã no primeiro trimestre do ano. Sua mãe, diante de várias filhas e não sei informar mais o quê, não sabia que nome lhe dar, então deu um nome extremamente parecido com o de uma das outras, chamou-a prontamente de Luana. Mas cada ser é tão único, que a letra que desassociava o seu nome com o da irmã, já não fazia mais diferença, porque ela era a própria diferença! Esta menina ganhou um apelido: Lua, que pra falar a verdade, condiz muito mais com  ela. 

Lua nascerá cheia de sensibilidades, imaginação e curiosidades. Começou a trabalhar cedo e desenvolveu prontamente afeto por crianças, mas não demorou muito e fora buscar uma vida "melhor" na capital. Da praia a um aquário, em seu período maior de formação do mundo. Por esse aquário, não sabia quase nada sobre mar e viveu como se o mar não existisse durante algum tempo.
 
Ela ainda vive dentro do aquário, que por sua vez não é quadrado, não tem regras bem estabelecidas, não tem movimentos bruscos de novidades a um tempo, mas tem pessoas. A maioria, homens. Vários tipos deles, mas com algo em comum em característica: o fato de serem mentirosos. Cada um, em uma área. Isso fez com que demorasse demais a saber o que realmente era verdade, ficava confusa entre o que era dito; entre uma expressão ou outra, e até de sentimentos.

Ao longo desse período no aquário, se apaixonou, chorou, se desiludiu, reclamou, magoou, sentiu-se acolhida, riu de muitas bobagens... Encontrou refugio não somente em Deus, mas em séries e filmes. Sim! Pois a arte nos faz viver para além dessa vida, em questão de minutos.

Ela é bastante curiosa e conhecendo um homem que entendia mais de mar do que ela poderia imaginar, perguntou, pergunta de tudo, muito! Mas continuava um tanto confusa. Entre não conhecer e saber demais sem ter vivido aquilo; ficava na dúvida entre acreditar no amor, ou na coisa libertina por si só; entre ter uma vida cristã e garantir uma boa vida na eternidade ou, aproveitar essa vida como se não houvesse amanhã (porque pela justificativa de quem ela convivia, aproveitar a vida não condizia com uma vida cristã); ficou entre se entregar, ou recuar. Entre ser irmã, filha, amiga, ou qualquer outra coisa. Ficou em dúvida, como ser.

Mas Lua em aquário falava alto, quando falava. Era inconstante, uma pessoa que se irritava fácil, de poucos sorrisos, diziam que ela era fria, controlada, estranha... Ela se sentia diferente, incompreendida, sensível demais. Ficou entre uma mistura de exposição entre se amostrar com a de se esconder. Passou a se mostrar mais, o que era por fora, para encantar, para poder dizer: "agora sou eu que digo não!". Virou sereia. Aprenderá no aquário o que importa pra muitos homens... E decidiu entrar na dança. Porém, pelo visto, ainda não era totalmente a dela.

Lua vivia indo ao mundo dela. Interno, sozinha, introspectiva em várias coisas, ou alguns nadas. Se teletransportava para o "mundo da lua." E no meio desse impasse de se formar, eis que chegou outra garota no aquário! "Mais uma... Que não deve durar." Suponho que pensou. Ela se intrigava com a garota e na verdade, quase não dava a mínima pra ela, a não ser a questão de estar circulando muito por um espaço que era só seu. Mas com um tempo, a garota, mesmo longe, conseguiu ir se aproximando dela e Lua também. Reciprocidade.

Havia algo de muito diferente naquela nova garota que chegou. A novata parecia ser de aquário, mas entendia também sobre mar, ela aproveitava a vida, como também vivia uma vida cristã; ela é uma pessoa amável, porém não doce de abusar; ela é eficiente no trabalho, mas chega atrasada; ela sabe de muita coisa e tem a humildade de dizer: "Estava desorientada. Agora fud**!" Etc... Esse jeito, meio cá, meio lá... Aproximou as duas. Porque a sinceridade, o bom humor e amor atraem.

A garota novata esperou o tempo de Lua para ela ir se revelando e não a julgou; viu ela em todas as suas fases e mesmo assim continuo na sua linha: Respeito - é o mínimo que todos devem ter um para com outro; tempo, pra cada coisa e cada um; processo - uma constância de alto conhecimento; amor - a Deus e ao próximo sempre; luz - para revelar verdades e se revelar! A garota acreditava em tudo isso, e passou isso pra ela.

Lua iluminou-se mais linda, porque a luz que faltava chegou. Não... Não foi a garota novata! Foi Deus por meio da garota. Foi o cuidado dele vindo de todos os lados, mesmo a Lua não sabendo o que fazer, nem as vezes enxergando claramente isso. A luz dEle resplandece chegando e atuando por meio de algumas pessoas. Candeias. Deus cooperou. Mais uma vez. 

Seu hobby afrontoso tornou-se a busca por uma profissão! Procurando autoconhecimento encontrou sua essência e encontra a cada dia mais! Lua não veio de um aquário para viver em outro tão somente nele. Lua também ilumina, também encanta, também faz revelarmos nossa sensibilidade, intuição, intimidade; nos estimula a querer ver por além das aparências e ela também, exagera na sensibilidade. Ela mesmo deveria se atentar,  que merece ser observada como um todo, com zelo e amor; até por ela mesma. Sem orgulho, mas por ser filha de quem é.

Hoje ela sabe sua origem e vai de encontro ao mar, porque é lá onde ela se encontra mais... Hoje ela tem mais coragem que antes, mais calmaria; sabe que pode encontrar e merece, não menos que, um digno amor que misture boas loucuras e singelos sorrisos (por que, não?); que a amizade é tão importante, que o contato com a família também é; que a gente deve ser gentil, por não saber o que as pessoas estão passando; que ela pode se mostrar em vários desenhos e tatuagens são viciantes; que livros também são meio de transporte e muito conhecimento; que as pessoas se renovam, que algumas a gente deseja a paz de longe; que deve perdoar pra poder seguir; que o mundo é bem mais do que aquele aquário pra onde ela veio inicialmente; que ela pode transbordar nessa jornada! E que na prática isso tudo é muito difícil e leva tempo.

Lua não só passou a se mostrar mais como uma tropicana perdida; mas também se fez sereia e continua a buscar explorar mais o mapa da sua vida. Para descobri-la a regra é: ser uma pessoa que goste de mergulhar, isto é, não ser uma pessoa rasa. Ela, tornou-se voz dentro do aquário, deu voz a seu lado aquariano de ser, a seu  lado pisciano de ser, deu voz a ela por inteira. Estar a se descobrir.

P.s: Bom mergulho moça! Contudo, não esqueça, como seu amigo do mar falou sobre a vida: "Só não pode ficar imerso no fundo por muito tempo, pode ser muito ruim de voltar. Vá, mas suba..." Mergulhe, moça, porque você é muito bonita em sua natureza de escamas e liberdades.

sábado, 28 de setembro de 2019

Naqueles dias do mês

Baixou o estrógeno, disse ela; e junto com ele baixou um clima, uma personalidade e ela não parece ser quem ela é. De fato, ela não é assim, ela está assim... Pergunto observando-a, o que se vai quando seu útero se despedaça? Ela começa a ficar triste, encolhida, irritada, agressiva. Um mix! Uma mulher ferida. Certamente... Mas isso acontece todo mês! Ela não se acostuma? 

O corpo dela não permite o hábito, chegou como "insight". Para além dela pensante, há o corpo dela tão complexo na sua constância de variações; hormônios sobem e descem, naturalmente. Fito-a com surpresa, ela na verdade tem que lidar com isso todo mês? 

Comprei sorvete e dei pra ela, porque li em algum lugar que é bom e pela expressão no rosto dela, deve ser mesmo. Enquanto ela toma o sorvete, come, eu fico pensando... O que tem naquilo de tão especial? Pesquisei. Estimula hormônios bons que nela agora faltam. Ou seja, não é bobagem de mimo é real! Ela precisa de reposições.

Uma flor despedaçada em vermelho vivo, causa dor. Dor lá no ventre, como também na sua cabeça no primeiro dia. Com o escorrer tinto de seu ventre, vai embora o poder de ser mãe, o desejo de ser mãe; ou vai o alívio de ainda não ser mãe, mas vai causando incômodo; aparece durante alguns dias a marca vermelha lembrando que ela multiplica nações. Vai a marca da preparação fraternal, vai a marca da sua busca incessante física de ser um com outro e gerar algo bom, gerar vida. Seu sangue mostra a imposição que lhe foi dada: ser mulher. E o que é ser mulher para além disso? Pensei. Mas isso são outras histórias. 

Observei-a depois em outros meses; as vezes a guarda dela baixa intensamente, mas vi que ela sabe na maioria das vezes lidar com essas variações de hormônios que causam uma montanha russa em seu humor e até altera a aparência de seu corpo. 

Vi que ela aprendeu a se amar mesmo sendo estranha para ela mesmo, percebeu que independente disso, ela merece amor; que pode curtir a sua escuridão até chegar novamente a luz, sem medo de ficar lá por muito tempo; que ela pode comer e nutrir até sua alma sem receio de engordar; que pode levar afeto numa compressa que aqueça sua pele até chegar no seu ventre machucado; que ela pode parecer uma menina de 12 anos que levanta da cama e vai para o sofá assistir desenhos e filmes bem "sessão da tarde" até ela enjoar; que pode chorar e rir por uma bobagem com uma sensibilidade de poucas palavras ou mesmo, vendo uma cena afetiva; que um banho demorado é bom; que ela pode dispensar compromissos por não estar tão bem, que ela pode aceitar também se assim quiser, mas sem cobrar tanto, afinal, seu corpo está energicamente consumindo mais para uma região e é nela, dela. Foco em si mesma. 

Concluí observando, que ela aprendeu que pode se aninhar em meio as cobertas procurando abrigo que dessa vez o corpo se preparou, mas não pode ser; que existe afetos em diversos cômodos da sua casa, que existe os novos escritos nessa sua fase lunar; que ela deveria pegar aquele livro que encostou no criado que nada fala; que ela pode vestir roupas mais confortáveis e leves, sem combinar estampas e mesmo assim se sentir bem; que ela pode assistir um filme todo e dormir, porque ela se permitiu dormir demais! Que ela pode lutar com ela mesma não aceitando ou se entregar a esses momentos, conhecer seus limites e avisar a quem está ao seu redor pra situar como se deve agir. 

Ela aprendeu que pode fazer mais um pouco disso tudo em outros dias! E se não fizer, não importa a correria, o corpo dela uma semana do mês avisa, que ela deve parar para esse encontro. Para cuidar de si, cuidar do seu corpo que também é lar. 

Admirei suas nuances, seus altos, seus baixos. Que beleza entre algo delicado e brutal ela tem nessa dança, sim, ela dança com isso, nisso... Levantei de onde estava e sem dizer nada ofereci o cuidado que ela as vezes esquece ou não consegue ter, mas precisa: um abraço. Assim juntei seus pedaços e inteira ou inteiros, ficamos ali; ela lambuzada de chocolate e eu fingindo não querer um pouco pra não irritar ela. 

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Uma dor na coluna e a moça amendoada

A pele dela cor de amêndoa atraiu um homem com problema nos ossos; coluna mais precisamente. Nosso instinto sabe melhor quem devemos escolher que nós mesmos. Será? Discutia ele com seus feromônios, enquanto ela passava por ele com um vestido um pouco solto, mas que marcava bem a silhueta bonita de uma grande garota que media um pouco mais que 1,50m de altura. Ousada será? Com essa altura de salto alto, teria ela medo de arriscar algo, mais do que torcer seu lindo tornozelo?

Ele se aproximou dela, a trabalho, pois era o que podia no momento. E viu que mais que remeter a uma fonte de cálcio e magnésio por sua cor, ela também ajudaria a levar os fardos que pesavam nas suas costas. Se ela é forte? Demais! E também pra roubar sua atenção para outra coisas e esquecer da sua coluna. Na verdade, aquela mulher parecia trazer os melhores pesos para seus braços. 

Filho, nossa, ela tem um filho! Passou a vê-la também como ela era como mãe. Aquela pequena tinha mais garras do que leões que ele enfrentará, certamente, o aborreceria algumas vezes, mas também, o protegeria e cuidaria do seu lar, da sua prole. Proativa ela... O que queria mais aquele homem senão ela? "Á vante!" 

Ela aceitou. Ele apaixonado por suas qualidades e atraído pelos desafios de seus defeitos. Ela querendo saber se o jeito que ele organizava as coisas organizaria também (juntamente com ela) sua vida. Não... Mentira! Ela só pensou nisso depois! A moça queria mesmo era saber como era os "manuseios" daquele homem. 

Começaram o romance. Pode-se chamar assim? Não sei muito bem. Mas começaram. Descobriram que há amor onde não se espera, há um encaixe na rotina louca quando se quer, há sonhos que se constroem juntos fazendo traços de cimento e carregando tijolos mesmo cansados; há desafios na personalidade, diferenças gritantes, e sim, essas diferenças gritaram, fizeram-os chorar, se irritar e até questionar o inquestionável. 

Continuaram, se reinventaram, mudaram, se tatuaram para levar em seus corpos marcas mais interessantes em letras e desenhos, mostrando aonde quer que possam ir, o que realmente importa. Se entenderam. Se alinharam mais. Se afastaram! Sim! Para novos desafios, mas estão mais unidos que nunca, porque há propósitos, como também, saudades quando longe, entrelaço quando estão perto.

A falta um do outro fez perceberem que se for pra enfrentar e amar nessa vida, querem fazer isso um com o outro e pelo outro. Casar. Por que? A falta da moça cor de amêndoa deixou o homem até mais magro e fraco também; a falta desse homem, bem, o que deixou? O que ela encontrou sem ele além de saudade? Confesso, eu ainda não sei muito bem. É que não li mais ela. Agora como já estou longe, vou ter que perguntar. 

[...]

"Olá, moça!... Como vai a vida por aí?" 

terça-feira, 9 de julho de 2019

A descoberta dos machos aliens

- Que cheiro é esse?
- Chocolate foi como ouvi eles chamando.
- Cho o que?
- Colate.
- Ah... Cheiro bom. Pra que serve?
- Para comer.
- E faz o que? Fica forte?
- Fica feliz.
- E é? Como você sabe?
- Porque as vezes os humanos estão com outra cor e caras ruins, comem e mudam. Fecham os olhos, fazem sons engraçados, sorriem e descansam. Dão a outros como se fosse algo valioso! E os outros sorriem também. Eles se conectam depois com os braços, com as bocas também, tem vezes. Essas coisas assim.
- Que bom. Interessante...
- Sim.
- Litinion! Minha conectora feminina precisa disso. Onde podemos conseguir?
- Olha por trás desse verde, está vendo aquela caixa sem cor com várias coisas dentro e luz?
- Sim!
- É ela que guarda o chocolate em pedaços, com varias cores que guardam ele.
- Como saber quanto comer?
- Bem, você come e muda, depois come mais e vai ficando mais feliz, e depois você vê que já está muito feliz pela sua energia, pelos sinais, pela sua barriga e então para.
- Se parar de comer deixa de ficar feliz?
- Não! Porque você já está bem feliz. Tem que gastar a felicidade primeiro, quando faltar você vai saber e então pega o chocolate e come outra vez.
- Ah... Entendi. Vamos lá agora!
- Não! Deixa os humanos saírem da caixa, não sabemos o que podem fazer. Você nunca viu um humano mudar de cor com cara ruim, não é nada bom. E a gente tem que pegar muitos! Vamos salvar nosso planeta de todo período raivoso com chocolate!
- Sim! Verdade. É de chocolate que nosso planeta precisa!

segunda-feira, 8 de julho de 2019

A Bela Pata infeliz

Amanda Lorrane era o nome de uma pata; com pelo dourado andava rebolando mais que suas irmãs, afinal treinará para não ser desengonçada; tinha os cílios viradinhos e olhos negros. Era linda e ainda andava com uma fita lilás no pescoço, porque Edileusa, sua dona, colocará.

Edileusa falou que ela era leonina porque os astros disseram. Ela não entendeu bem, como ela sendo pata, tinha algo de leão, cuja coisa em comum que ela via, era só o nome daquilo de onde saiam as garras dele. Mas enfim. Tentou entender não o motivo, mas o que isso interferia na sua vida. Entendeu que poderia então, justificar sua boa autoestima e isso bastava. 

Pata nova, mimada pelas mais velhas, desejada pelos patos machos, poucas amigas e com algumas muitas inimigas. Percebeu que isso de nada valia, não estava feliz. Pensou o que poderia ser, afinal recebia atenção de todos; era bela... Mas faltava algo. Os patos machos se atraiam pela sua beleza e sempre pensavam em algo prático que era multiplicar aquela qualidade em lindos patinhos. Por que então não estava feliz?

Amanda Lorrane queria um amor verdadeiro! Todos merecemos um, pensou ela. "Esse destaque todo pra mim, não dar chance para minhas poucas amigas e outras nem sequer me querem próximas. Todos conseguem as coisas porque buscam e pra mim é tão facilitado! Por isso que não sei fazer nada direito... Não me permitem nem errar para aprender. Sim, hoje sei que minha beleza atrapalha. Porque tudo que eu consigo com ela é superficial." A pata chorou e passou dias cabisbaixa; então sua avó percebendo isso, foi falar com ela.

- Minha Lôzinha, porque você está assim? O que deixou sua cabeça não olhar o horizonte, mas o chão?
Ela nada falou e tentou esconder as lágrimas caindo.
- Lô, você não é um avestruz faminto para estar com a cabeça quase enterrada no chão, diga-me o que houve.
- Vó Dina, a minha beleza atrapalha! Eu quase não tenho amigas! Os patos só me querem para reproduzir! Eu não aprendo as coisas como todo mundo porque me é muito facilitado... E eu deveria agradecer, não é? Pois é um privilégio ser bonita, mas eu não estou gostando mais de ser tanto. Estou confusa.
- E deveria ficar mesmo, minha querida. Mas vamos organizar as ideias dessa cabecinha, certo? A sua avó aqui, já foi muito bela, e ainda sou não é? Contudo todos tem o seu momento de destaque e o meu se foi. Eu tive que aprender algo dolorosamente bem depois, pois não tive esse seu pensamento quando nova. Meu amor, deixa eu te contar algo. Ser bonita por dentro transborda! É bom para você, é bom para atrair os outros almejando ser como você, mas em um bom sentido e claro, você pode ajudar as outras a serem bonitas, cada uma a seu modo, está bem? Cada uma possuí sua estrela.
- Estrela...?
- É, brilho.
- Vó eu não sei como faço isso. Por dentro, transbordar, estrela...
- Tudo o que nos é dado de bom ao nascermos deve ser usado para o bem. Se está fazendo mal tem algo errado. Não está sendo utilizado da forma certa.
- Como saber a forma certa?
- Faz bem aos outros e a você mesma.
- Então tenho que usar minha beleza para ajudar outros?
- Digamos que sim.
- Mas vó eu nasci assim: Linda!
- Lembra da estrela?
- Sim.
- A sua é mais clara, você já nasceu com ela bem acesa em relação a esse destaque, mas isso da beleza físcia, pode passar, basta um acidente, filha! Mas já que a tem, ensine as outras patinhas a encontrarem e ascender a estrela delas; e no caminho, você vai ver que aprenderá muito com elas também. Uma ajuda acender a outra permanecendo assim, brilhantes. Desse modo, todas vão ficar bem e tudo se resolve. Os patos machos, por exemplo, irão admirar cada uma com suas particularidades e se atrair mais por uma, do que outra. Seleção. É assim que acontece. Brilhem onde estiverem, meu amor. Todas. Isso não atrapalha uma a outra, só deixará esse universo mais feliz e bonito.
- Que lindo, Vó. Isso tem algo com os astros que a Edileusa fala?
- Tem um tanto disso, pois tudo está conectado.
- Entendi.
- Vó Dina... Quero fazer uma revolução!
- (Risos) Como, Lô?
- Eu preciso mostrar a elas as estrelas lindas que elas tem! Pra elas brilharem pra o mundo! Vou ensinar como destacar o que elas tem de mais agradável, é isso que faço. E vou... Preciso organizar isso com calma, não é? Mudará nosso mundo! Aqui na Lagoa de Beza, pelo menos.
- Sim (risos), vá pequena. Mas lembre! Pode ajudar a perceber o que elas tem de bonito que os olhos alcançam, mas aprenda e ensine, numa troca de conversas e amor, o que tem de bonito da personalidade, das atitudes; do que vem de dentro. Isso tudo sim, é ainda mais lindo e duradouro. Certo? Ah... E é um processo. Sem rapidez pra isso tudo.
- Certo!
- Lô, você verá o quanto você será mais bonita e feliz ao ajudar outras a serem. E não se preocupe, seu amor chegará no tempo certo. Ele está só esperando encontrar a revolucionará dele.
- (Risos) Obrigada, Vó! Um dia eu quero ter a minha estrela brilhando como a sua! Aliás, com a tua!