quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Amor de varanda

Cheguei em casa a noite muito cansada do trabalho. Estacionei o carro abaixo de uma cobertura do lado de fora, fui caminhando chutando pedrinhas na areia até chegar no alpendre de casa. Apenas três degraus, não resisti e sentei. Escorada na coluna de madeira ao lado fiquei olhando tudo aquilo e pensando: meu refúgio. 

A minha casa fica em uma pequena vila cheia de outras casinhas camufladas em nossa floresta particular. É tão tranquila que parece que eu moro sozinha para além das paredes desta casa. Os caminhos se iluminam pelos acessos de cada uma organicamente bem distribuídas. São bem rústicas. Todas em madeira. São lindas e cada uma com sua particularidade. A minha por exemplo, tem um caramanchão grande com com um sofá de madeira abaixo e bastante almofadas; ao lado tem outro com uma pequena mesa e quatro cadeiras. Um lugarzinho pronto pra se esparramar e outro que convida a uma refeição do lado de fora, ou pra jogar com amigos. Além desses espaços, tem várias lâmpadas espalhadas na área externa que causam a impressão que pode ter uma festa a qualquer momento, é tudo lindo e extremamente acolhedor. 

Que bom que chegou o final de semana. Chega de plantões esses dias. Estou faminta e com vontade de beber um bom vinho. Ligarei então pra algumas amigas...

Hoje é unânime. Aquele dia que ninguém pode. Nesse momento não é bom morar distante do centro da cidade. Eis que ouço baixinho, mas bem audível e prazeroso, o som de violão. Levanto me guiando por ele. Só um acústico e dedilhado show solitário, pelo visto agora tenho um novo vizinho artista. 

Vou indo em direção ao som, quando tropeço numa raiz, xingo e caio. O suficiente pra assustador o tocador, fazer ele parar de tocar e estreitar os olhos para me ver. Que ridícula estou e lá vem ele até mim. Sorri ao me ver limpando as mãos na calça e minha roupa branca ficar marrom, além de ver também, minha cara de idiota, claro. 

- Oi! Você está bem? 

- Sim. Foi só um pequeno tombo. 

Ele me deu a mão que estava livre pra eu me levantar melhor já que estava de joelhos. Aceitei e ao levantar devo ter feito uma cara horrível de dor, porque ele arregalou os olhos e esperou eu falar. Meu pé deve ter torcido e estava sangrando um pouco. "Droga". Comentei algo com ele, e foi então que me ajudou a chegar em casa. Queria chamar uma emergência e eu não permiti. Disse que teria como me cuidar, eu só precisava, bem, pegar uma maleta naquela escada. Assim fiz. Notei ele suando frio e dessa vez fui eu que perguntei se ele estava bem. Falou que fica meio tonto ao ver sangue, mas que estava tentando se manter firme ali e não focar naquilo. Eu sorri. Aquele homem não poderia mesmo ser acostumado com urgências. Cara de "rapaz de apartamento" que no máximo coloca um adesivo num pequeno corte e olhe lá. Mesmo assim se manteve em prontidão ali. Gentil. 

Coloquei uma bolsa de gelo no tornozelo e fiz um pequeno curativo no joelho. Ele ofereceu ajuda em várias coisas, mas a última me surpreendeu: "você está com fome?" respondi que sim. Ele sugeriu uma pizza e perguntou se eu poderia tomar vinho. Ah... Isso foi como música para meus ouvidos! Assenti. Ele então finalmente me cumprimentou, disse seu nome e perguntou o meu. 

- Ótimo... Eu vou em casa, pedir a pizza e colocar o vinho pra gelar um pouco. Ah, se precisar de algo, só chamar... Volto logo mais, Ângela.

Ele foi saindo e eu me peguei com um sorriso leve nos lábios. Ao entrar de fato em casa, fui a um quartinho, peguei as velhas muletas que já usei em outra época e fui tomar um banho. Vesti um vestido leve por ser mais fácil e depois coloquei um casaco por cima. Não demorou muito e Murilo tocou a campainha e lá estava ele... Tão jovem... Eu aqui com meus trinta e poucos admirando um novinho na porta com um vinho na mão, uma pizza na outra e um violão nas costas. 

- Terei show particular? 

- Se assim quiser... Posso fazer. Você parece que se vestiu a altura de um dos bons. Terei que me esforçar mais. Onde posso colocar essas coisas? 

- Nessa mesa, por favor. 

- Tá bom... Você conseguiu muletas tão rápido. Já havia se machucado antes?

- Foi, mas também, "faz parte" da minha profissão. Tento ter coisas disponíveis caso aconteça alguma urgência. 

- Você trabalha com o quê?

- Sou médica cirurgiã e você?

- Sou professor de história e músico. 

- Hmm...

- Conte-me sua história então.

- Prefiro tocar e cantar a dos outros... 

(Risos) - Não parece ser um garoto tão resistente pra se abrir assim. 

- Não sou, depois um vinho. 

- Hmm... Vamos começar os trabalhos então! 

- (Risos) Sim. 

E foi assim que começou, na minha varanda, a noite mais gostosa da minha vida e um amor improvável. 

P.S: Ao meu amor Murilo, é chegada a hora de cantar ou contar, mais uma vez a nossa história. 

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Realizando sonhos

Ana Clara é uma menina linda de olhos castanhos claros, cabelo liso cor de mel e pele branca rosada. Um verdadeiro milagre que saiu da barriga da minha querida esposa Ester. 

Ester não podia ter filhos segundo os médicos, mas o que pensávamos ser sintomas de uma doença grave, foi na verdade a descoberta do nosso bem mais precioso: Ana.

Ana Clara é uma menina cheia de perguntas; uma imaginação lindamente fértil e tem um coração maior que ela. Com seus 5 anos já carrega consigo uma sabedoria ímpar de quem aprecia a vida. Quando vamos ao parque, vejo a luz de Ana nitidamente. Ela é enérgica, solidária, generosa, sorridente, contemplativa e curiosa. É tão bonito vê-la vivendo. Não imaginava que ela nos levaria tanto para passear, para ser livre, para gostar do simples, para sermos tão presentes, pacientes e gratos. 

Apesar dela já ter sido enviada com um espírito tão bondoso, pedimos a Deus orientação pra educá-las da melhor forma; ensinamos quem está acima e olha por nós; a quem oramos pedindo tantas coisas e agradecemos. Ela já sabe que não é como um gênio da lâmpada ou um servo que faz exatamente como queremos; tudo tem que ser conforme a grandiosa e perfeita sabedoria, que vem dEle. E diante da vontade dEle.

Ana agora está aprendendo sobre "realização de sonhos". Ela já percebeu que existe uma força no nosso desejo que transforma situações; que faz com que tantas coisas se tornem reais. Dia desses, ela ficou me questionando qual era o passo a passo de como os sonhos se realizam. "Precisa querer, falar, pedir... e mais o quê?" Eu disse a ela que depende do que ela quer conquistar. Mas algo tem que ser feito para além do querer em si, tem que ter ação. 

Alguns dias se passaram, estávamos no parque quando ela ficou muito tempo olhando o céu em um fim de tarde. Alguns minutos e as cores de quando ela começou já se misturavam e não eram mais as mesmas. Ela ao olhar às vezes sorria de leve. Fechou os olhos e repirou fundo, depois soltou o ar lento e veio até mim.

- Quantos agradecimentos e bons desejos cabem na distância daqui pra o céu? - perguntou Ana. 

Foi quando fiquei admirando a beleza e reverência da sua pergunta. Há gratidão no peito; há inúmeros sonhos e vontades; há uma confiança e respeito a Deus que está no céu. Então respondi: 

 - As medidas estão nas palavras, minha pequena. Basta falar e acreditar, então a magia irá aconteter. 

Ana sorriu satisfeita. Parecia tranquilamente contente com a infinitas possibilidades.

quinta-feira, 28 de março de 2024

Vooando

Na janela havia uma cortina com blackout devidamente fechada e um ar frio. Luci dormira por cima de um livro e esqueceu até o abajur aceso. De repente, ao se mexer, acorda. Suas costas doem muito e ela não acha bem uma posição então vira de bruços. Que alívio... Parece liberta. Alonga o braço pra o lado, apaga a luz do abajur e volta a dormir. 

Depois de horas decidiu se levantar. Se espreguiça de frente pra o espelho com o corpo pesado e asas! Ela ver asas! Fica atordoada, assustada olhando fixo pra o espelho. Depois esfrega seus olhos, procura o celular, ver a hora e se belisca. Apaga e acende a luz. Não... Ela não está dormindo! Como isso é possível? Asas de borboleta! Isso explicaria as dores nas costas. O que ela veste tendo asas? Cogumelo! Fumou antes de dormir... Então, bem, isso não pode ser real. Mas e se for? "São bonitas. Eu poderia tentar voar!" 

Nesse momento ela veste uma roupa e por cima de um top joga um casaco. Desce no prédio e vai andando pelas ruas; percebe que o sol mal clareou, não tem ninguém a vista. "E se eu tentar?" Tira o casaco, se sacode como se isso ajudasse a abrir as asas e corre abrindo os braços. Sente planar! Que sensação maravilhosa. 

- Agora que aprendi a planar é hora de voar mais alto! 

E ela bate as asas só em pensar que precisa bater então voa muito mais alto! É uma sensação de liberdade incrível com uma altura assustadora. A medida que pensa e se descobre, ela voa diferente. Segura de si, já nem tem mais medo de altura. Ela tem a sensação de que as asas só precisavam de um tempo pra se formarem, mas é a essência de Luci. Faz parte dela! E como é encantador voar! Em algum momento ela passa por tipos de árvores e enxerga as casas de cima que mais parecem maquetes; passa por outros animais e eles nem olham ela diferente... Nessa hora ela entende e exclama: "Eu também sou bicho!" Depois de um longo voo pela cidade ela decide pousar, voltar e faz isso perfeitamente e sorrindo. Entra pela janela do quarto e se debruça na cama contente. Mas sua prima bate na porta,, então se levanta de repente, destranca a porta e fica sentada na cama. A prima entra e diz: - Bom dia! Já estava preocupada, a tempos que batia na porta. A gente vai se atrasar pra ir a faculdade! Que cara é essa? Parece que teve um sono bom, hein? Tá com a cara boa. Mas se apresse, vou terminar de preparar nosso café. 

Luci sorri e diz que já vai descer. Enquanto a prima desce as escadas ela olha no espelho e ver que as suas asas não estão ali. Só  marcas nas costas como se estivessem guardadas. Então ela tenta encontrá-las: "Ativar asas!" e elas surgem lentamente se abrindo como uma flor desabrochando. A medida que as asas vão se abrindo vai surgindo um grande sorriso  em seu também. Maravilhada. "Vocês estão aí. Sim! Vocês aparecem quando são bem vindas. Quando eu decidir usar... Que bom. Que bom vocês existirem em mim. Usarei vocês mais vezes! Obrigada por aparecem no meu aniversário."

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Eu vou longe!

29 anos e o que tenho pra falar pra garota de 10 anos atrás? Que vou ser muito feliz com a vida fora do trilhos! Que eu deveria escutar a previsão da tia Nena: "Camila, tive uma revelação em um sonho com você, essa cidade é pequena pra ti, se prepare pra ir longe por outros lugares, outros países! Segue teu chamado, garota!"

Desde que ouvi isso de tia Nena fiquei encucada. Eu amo desenhar desde criança e minha mãe e avó são costureiras; pensei então em juntar os ensinamentos delas com esse dom que Deus me deu e ser estilista. Depois que ouvi isso dela, pensei que poderia certamente ter muito sucesso! Meu pai sempre achou uma bobagem de sonho, dizia que eu tinha que saber de onde eu vim, que nossa família é humilde, que quase não tínhamos dinheiro, mas temos as maiores riquezas que é saúde pra trabalhar, fartura em nossas colheitas que nos dão sustento com as barracas nas feiras e uma família amorosa com a benção de Deus. Meu pai é um homem bom mesmo, mas faz tempo que não sabe sonhar. 

Eu estudei, estudei muito, tive uma professora que olhou pra mim e acreditou no meu potencial; me forneceu direcionamento, internet e eu estudei ainda mais. Foi assim, que passei no vestibular que fiz em outra cidade do Ceará; fui pra Fortaleza. Amei o curso, morei numa república, fiz boas amizades; aprimorei meus desenhos, as costuras e tudo mais; sonhava muito com modelos desfilando com as roupas desenhadas por mim; mas a vida às vezes brinca com a gente, não é mesmo? 


Depois que me formei, comecei a trabalhar numa fábrica, as coisas estavam dando certo e meus pais estavam orgulhosos de mim. Sempre que eu ia visitá-los era uma boa troca, eu levava roupas mais bonitas pra cada um, ensinava um pouco do que aprendi a minha mãe e também aprendia macetes com ela; fazia a feira de frutas e verduras no quintal de meu pai com ele sempre muito saudoso, animado e curioso; ainda dava tempo de sair para encontrar algumas amigas. Era muito bom estar em casa, morar perto deles... Mas e aquilo que tia Nena falou? Não vai se cumprir? 

Estava meio desanimada com algumas coisas na rotina de trabalho e uma das minhas amigas me chamou para "espairecer", havia um circo novo na cidade. Lembrei de uma atividade do livro que eu estava lendo [O caminho do artista] onde sugeria que a gente marcasse um encontro com nosso artista, levasse ele pra passear. Pensei que ir ao circo poderia ser uma boa ideia, então fomos. E como foi bom! Entre um número e outro eu me pegava sorrindo, atenta, imersa... Sempre gostei de circo, mas parecia ter esquecido disso. Hoje, adulta, eu olhava pra eles pensando na ousadia, na criatividade, na coragem, no reinventar-se e viver da sua própria arte...

Como boa libriana com lua em peixes (coitada de mim com esse mapinha), fui levada aos olhos, ao manejo, a técnica, ao tudo mais de um equilibrista; admirando ele fazer tudo aquilo com diversão e desafios. Sebastian, o palhaço o apresentou. Sebastian... Lindo. Com seus olhos apertados que ao sorriam viravam duas belas linhas, a boca desenhada com traços finos que poderiam contrastar com a minha, sua pele parda parecia estar sempre bronzeada, o cabelo ondulado e fácil de bagunçar, seus olhos castanhos escuros, o corpo bem definido, forte, resistente e um sorrisinho que certamente despertavam tantos outros sorrisos sem jeito. Ele apareceu, fez seu número, ficou como assistente de palco, depois foi pra o globo da morte e na minha cabeça a noite toda desde que ele apareceu, só tinha ele. Só dava ele. A minha amiga percebeu e sorriu, disse que seria uma boa aventura pra minha vida que andava séria demais, mas ele nem se quer olhou pra mim. 

Pausa para pipoca. Eu amo aproveitar de um tudo então, tinha que ter a pipoca, o refrigerante, o churros e Sebastian... Sebastian estava lá. Comprei as coisas aos poucos, voltando várias vezes na fila só pra ver aquele sorrisinho. Ele sempre me retribuía e eu ficava naquela de "como ele é fofo" e "sou apenas mais uma".

Não tinha mais o que comprar e o intervalo acabou. Voltamos ao picadeiro. Será que meu coração tava tão ocioso ao ponto de ficar iludido assim? Admirado... Coitado. Por fim, foi divertido. Acabou o espetáculo e fomos em direção a saída com minha cara pintada de palhaça teoricamente porque minha amiga não parava de sorrir de mim com essas minha paixonite platônica. Até que ouço alguém me chamando e quando viro, era ele. Sebastian... O nome doce como sorvete na minha boca. Mas como sabia meu nome? Lá vem ele sorrindo com meu cartão roxinho na mão. Sim, o pagador das baganas e dos encontros. Havia deixado pra trás e ele achou! Não era um pilantra pra tentar usar. Ele era honesto! [Eu alimentando a paixonite.]


Se aproximou de mim, super educado e simpático, meio sem jeito, me entregou algo a mais. O seu número de celular anotado numa senha para o próximo espetáculo e foi aí que eu comecei a ser feliz de novo na minha vida. Foram meses nos encontrando, nos apaixonando, chamadas de vídeos, fins de semana e até encontro onde eu morava. Percebi que ele na verdade era tão tímido no início e foi se soltando com minha tagarelice. Como eu estava feliz! Muito. Mas nosso tempo estava acabando, o circo já estava 4 meses na cidade. Ele disse que não poderia me dar uma vida como eu merecia em grandiosidade, mas queria tanto que eu fosse com ele. Meus pais adoravam Sebastian, a turma do circo gostava tanto de mim, acabei fazendo amizade e figurinos novos, o que foi maravilhoso! Arrisquei brincar de aprender a escalar tecidos, dançando, virou meu exercício favorito; eu até brincava dizendo que era o auge da minha profissão: um tecido emaranhado no meu corpo me levando as alturas. Fiquei pensativa durante alguns uns dias... 

A verdade é que estou muito feliz e amo o Sebastian; contudo e minha carreira de sucesso? Foi pensando mais um pouco que lembrei do que meu pai me ensinou sobre aquele papo de ter saúde, do amor, das farturas no quintal e das barracas. Eu tinha que planejar algo muito bom... A minha geração muda tudo com essa internet... Bem, saúde eu tenho graças a Deus, amor também, o meu quintal é minha cabecinha com fartura de criatividade e minhas barracas serão...? Loja virtual! Sim! Decidi que faria dar certo! Organizei tudo e ao longo do tempo fui aperfeiçoando. A gente só pode aperfeiçoar o que já foi criado. Pois então.

Hoje viajo o mundo com o circo, com Sebastian! As roupas são vendidas para todas as cidades, estados e até pra outros países. Por onde andei montei rede de mulheres costureiras e suportes administrativos locais. Fazemos tantas roupas lindas! Isso tudo movimenta a economia da cidade com peças diferenciadas e uma qualidade fantástica! Faz também as mulheres expandirem os horizontes e mudar de vida com sua nova fonte de renda. É desafiador por vezes, mas é divertido!

Vez ou outra vou ao nordeste visitar meus parentes e amigas lá no Ceará. Eu amo tanto eles e também poder proporcionar uma vida com mais conforto pra eles e até pra meus irmãos menores. Por vezes bate uma saudade... Mas a gente foi criado pra cumprir chamados também. Se eu não tivesse me encorajado a sair, a conquistar tantas coisas com criatividade e a benção de Deus, aí sim, eu estaria entristecendo a todos. "Mufinando", sabe como é? Eu me preparo sempre pra ir longe, sem deixar pra trás as minhas bases e estou tão muito feliz com essa empresa se expandindo cada vez mais. Sigamos! 

[Sebastian além de lindo e amoroso, ainda é bobo. Diz que sou a musa acrobata dos tecidos do coração dele.]

terça-feira, 8 de novembro de 2022

A rainha sonsa

Ela é moça de passo curto porque a sua estatura também não permite que suas pernas sejam longas; o formato do corpo é tipo um violoncelo; cabelinho curto castanho com ondas e ela nem sabe que não deveria insistir em tirar essas curvas do movimento natural do cabelo dela, pra quê? É tão bonito quando ela gargalha e os seus cabelos dançam, os olhos apertam e choram de tanto sorrir. Ela é engraçada tanto quanto esquentada. Nem sempre foi assim, mas a vida foi ensinando ela a ser mais ousada e impulsiva. Será que os astros explicam essa mudança? Na verdade, precisamos de uma vida toda pra sabermos quem somos. A gente passa o todo tempo todo aqui nos descobrindo... Nos enrolando e nos descobrindo. Falando em enrolar, deixa eu contar uma. 

A moça bonita, inventou uma arte depois que não era mais moça. Sendo mulher, uma mulher experimente segundo ela, cismou que amar alguém é se prender e sofrer, então decidiu amar a vida e aproveitar de uma forma mais ampla. Não é coisa de relacionamento aberto, porque eu acho que nem combinado ela quer mais fazer. Ora, mais fácil e claro é o titulo de solteira. A mulher arteira, cujo nome é Flor, amacia os corações dos homens dispostos, iludidos com o sorriso dela e seu jeito educado de rainha sonsa. Acho que ela desperta curiosidades. Ela causa dúvidas, o que eles não sabem é que ela mesma não decide se vai ou se fica. Aliás, quanto tempo fica. 

Bem, em uma das suas viagens, numa das cidades mais coloridas do nordeste, no calor de vestir regata e alcinha, de franzir a testa mesmo com óculos escuros, Flor conheceu um guia turístico dançando numa roda de samba, logo ela que gosta tanto de liberdade, de passear. Ficou encantada! Muito sabida, aproveitou a dança! A partir daí, ela aproveitou as paisagens, aproveitou o cortejo e se aproveitou do homem, coitado. Iludiu o coração do viajante sonhador, o homem mais cheio de liberdades e com pé enfincado na teimosia de insistir que com ela queria mesmo era ficar. Fazer porto seguro, lançar âncora... Mas Flor foi embora pra suas terras e deixou o pobre homem, Geraldo, com o coração partido. 

Passou alguns meses e ele ainda procurava Flor, não deixando ser esquecido de tanto que mandava mensagens, ligava, enviava presentes; tanto contato fez que a mulher se assustou e se irritou a ponto de inventar desculpas e de não querer mais. Porém, chegou um dado momento que ele tocou no ponto fraco dela. O drama. A história trágica de um bom livro de romance. A compaixão, aproveitar cada minuto que resta na vida de um moribundo que deixará saudades e partirá menos infeliz. Perfeito. 

Geraldo, sofreu de doenças graves e quase se vai jovem, mas superou, eis que fazendo exames surgiu a suspeita de novo. Doente, talvez agora a morte finalmente o leve... E assim, como ela não faria os últimos desejos dele? Foi então que ela passou a alimentar a paixão do moribundo, marcar encontros, dar chances, deixar ele menos infeliz. Prometeu os céus e quase as terras numa mistura de "não quero que ele morra", mas se ele for, vai ser um final, de novela muito bom. 

Era tão preocupada e nervosa que o homem sentiu o gosto da paixão que a pena pode conceder. E há quem goste! Mas ele tão iludido, achando que aquilo já se transformava em algo bom, que ele queria mais era viver para estar com aquela mulher! Não perdeu as esperanças e foi atrás de outros médicos e mais exames. Eis que [eu não sei se a paixão, a compaixão, a fé, a sorte, o amor, as orações ou as macumbas do moribundo] nada mais ele tinha, se é que teve, fica aí o questionamento. 

Foi assim que Geraldo, saudável e feliz para enfrentar os quilômetros e ver novamente sua amada deu um tiro no próprio pé. Contou a ela. Pronto, acabou a paixão da farmacêutica [ havia esquecido de dizer a profissão dela]. Não havia remédio porque ele não precisava de um! Nem ela mais seria o seu remediar. Ela entrou em desespero: "E agora o que faço se ele ficou vivo? Achei que iria morrer!"

Vi Flor enrolada nas suas próprias invenções. Fiquei curiosa como ela iria se sair dessa. Pois, aconteceu que a criatura aproveitou uma mulher atrevida que passou no caminho, inventou uma história que só fazia sentido na cabeça dela e da outra que era comparsa das artimanhas dos amores soltos e o homem ficou questionando até mesmo a sua reputação! Depois disso ele se chateou e se afastou; mas não desconfiou do plano da amada, claro. 

Finalmente, ela ficou livre! Mas, logo começou a sentir falta de Geraldo. Ora vejam só! E o homem, abestalhado caiu na dela de novo! Foi assim que ela voltou a sorrir (inclusive da cara dele) e tomou o lugar que era de direito dela: a rainha sonsa e arteira, que nessas horas mais parece uma menina trapaceira!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Será que é ele?

Drielle era uma garota sonhadora e a procura de uma história de amor que lhe fizesse enxergar que "o amor é lindo"; mesmo diante de tantos romances tortuosos, ainda não havia perdido a esperança. Certo dia, estava no trabalho, quando precisou de um serviço e diante de algumas opções de contato um em particular chamou sua atenção. 

Um perfil lhe atraiu. Literalmente a foto de perfil de um homem. Ele tinha uma guitarra na mão, uma barba bem feita, um cabelo loiro escuro, o rosto um pouco maduro e uma postura de quem curtia o que estava fazendo, tocando. 

Foi mais além, procurou na rede social dele e tava lá: Músico, Advogado, Mestre, Doutorando... "Uau! Tudo que me atrai! Estudioso, deve gostar muito de ler, ligado a justiça, músico, bem apresentável e vai comprar um apartamento próximo a uma amiga! Desenrolado."

Entrou em contato com o rapaz em prol do serviço, ambos foram simpáticos um com o outro, marcou de se encontrarem para discutir a proposta, acabou indo para o lugar errado, tão empolgada que confundiu; falou com ele e eles já começaram a sorrir dali mesmo, a serem pacientes um com o outro ali mesmo; mudou a rota e foi ao lugar certo. Ao chegar ele estava lá esperando ela com roupa combinadinha, simples, sorridente, a cumprimentou. Ela querendo ver por trás da máscara o sorriso dele, ele próximo a janela tirou... Ela ansiosa, pra se mostrar também, fingiu que o calor a tomará  de suor e precisava tirar um pouco também. Conversaram e... Nada. 

Ele tinha tudo na teoria para atrair, mas ela não sentiu nada. Nada na voz, nada no sorriso, nada. Então era isso? Se empolgou a toa? Era. E como fazia tempo que não se empolagava com nada, gostou mais disso do que dele. 

Tem uma peça que falta... e talvez seja dela e nela mesmo. 

terça-feira, 29 de junho de 2021

Bus

Pela manhã no ônibus eu não costumo ficar no celular porque quando olho pra o lado é tanta gente assim que sinto uma inércia desconfortável; além de não ser bom pra vista; além de que é o momento que aproveito pra meditar ou debruçar a pensar em algo. Mas no geral, eu medito. Acho que a velocidade e trajeto do ônibus me permite isso. As coisas chegam na cabeça e já passam. Eu fico observando as pessoas com cuidado para não intimidar, claro. Especulo vidas, perfis e depois passa. Já estou olhando pra outra; ou outro lado, paisagem...

Tem algumas pessoas que chamam minha atenção. Por exemplo, a moça sem estampas. Ela era toda lisa... Tão clean que me chamou atenção na harmonia. Sem nada brilhante; ou seja, sem brinco, sem pulseira, anéis ou relógios. Cabelo bem penteado escuro preso como "rabo de cavalo"; uma blusa fina cor de marfim (mas nem dava pra ver absurdamente nenhum detalhe de um sutiã); um short bege com textura de linho; uma bolsa preta de alça longa, com a mesma textura de linho; uma sandália de calço marrom e faixas em cima azuis opacas com textura de linho novamente, porém em outro sentido. E só... Nenhum acessório a mais. Só o necessário. Os olhos semicerrados pelo sol e uma máscara branca que só cobria seu nariz e boca. Unhas feitas, mas naturais... 

Tão extremamente discreta que me chamou atenção. Eu queria fitar mais. Pensei: será que ela é virginiana? Será que a casa dela é minimalista? Será que ela é perfeccionistas que chega a ser ruim pra ela. Ela é chata? Ela está bem? Não parece ter um olhar tranquilo. Mas com um sol no rosto, quem parece? Será que ela fala contido; ou seria bombasticamente diferente ao conversar com os amigos?

Passou. Eu tinha que sair da minha cadeira e ir em direção a porta pra descer. Olha: Uma garota de 1,50 com uma calça preta, tênis preto e branco, blusa verde vem vivo, com um stitch bordado, cabelinho curto e como dizia a minha vó: com olhinhos "acatitados". Atentos e rápidos. Eu não lembro a cor da máscara.  Pensei: olha como ela caricatural também. Avessa a outra que vi a pouco; mas igualmente chamando minha atenção. Ela tem uma tatuagem no braço do studio ghibli... Chiriro em cima do dragão! Que legal. Deu vontade de assistir novamente com mais paciência.

Desci. Esperei o sinal fechar e atravessei.

Eu lembro mais dos detalhes que permito ver e das suposições de histórias do que olhar no celular passando por feeds e destaques do Instagram. As máscaras hoje cobrem sorrisos e alguns trejeitos, contudo, a gente aprende a ler de outras formas. Tem muitos personagens por aí.

Eu passei ontem no ônibus por uma parada que tinha uma mulher grandona com cabelo e pele escura e de cachos pequenos. Ela estava de fones grandes "JBL", olhos fechados e escorada no ferro da parada.

Pensei: ela está cochilando, orando ou curtindo muito a música? Pelo olhar/ ou falta dele deu pra ver pelo menos uma coisa: ela não estava por alguns minutos ali! 

Essa capacidade de silenciar e ouvir; ligar e desligar-se do mundo é extremamente gratificante. :)