quarta-feira, 19 de maio de 2021

A louca dos signos e o homem sombra

- Posso saber seu signo?

- Não.

- Por que só mostra o ascendente? Eu quero saber teu sol! Não somente a tua sombra.

- Eu sou composto dela.

- Eu sei que há cores.

- Só a natureza desperta meu olhar por cores.

- Talvez seja uma natureza sua.

- O que?

- Ser naturalmente livre. Então me deixa te ver.

- Abraçaria eu sendo sombra?

- Sim, porque eu sei que ainda há luz.

- Não abraçaria só essa parte que vês?

- Não! Porque sei que tem mais. Eu te quero inteiro.

...

- Eu gosto do pouco que vejo; e pelas silhuetas e sutilezas, te quero mais. Quero-te todo. Vem.

- Se eu mostrar tudo você é capaz de fugir.

- Se você não se mostrar é capaz de eu, por respeito, desistir.

-Tudo bem...

- Sim, tudo bem. Vem. Se mostra aqui.

...

- Uau... Você é mais bonito do que eu pensava.

- Obrigado.

- Bobo, poderia ter se mostrado mais antes!

- E o que faremos agora?

- Agora quero te abraçar!

(Risos)

[Abraçaram-se]

- Bem, agora eu preciso ir!

- Como assim? Depois de me ver todo?

- Sim. Você também está me vendo; eu continuo te achando bonito...

- E por que vai embora?

- Porque você demorou; e o meu próximo bonde já chegou. Não posso perder esse!

- Mas...

- A gente se ver! Eu amei te conhecer mais; porém agora tenho que ir! Até mais ver!

- Até...

sábado, 8 de maio de 2021

O dom de Djenny

- "Me dá uma palavra!" E a mãe dela dava então Djenny saía e voltava com um poema onde tinha aquela bendita palavra. Trazia rimas e o encanto no rosto com uma expressão de: "Olha o que consegui escrever!" Djenny tinha mais gosto por palavras do que por desenhos, porque pra ela o desenho dela não era tão bonito quanto aquela brincadeira de descobrir combinações, estruturas e sentidos em um texto.

Uma vez chegou para sua mãe e mostrou um desenho e a mãe falou o quanto estava bonito; mas sem olhar bem; ela muito sagaz percebeu e disse: "Não está bom, você nem olhou direito, tudo você diz que está lindo e ainda não está; é pra melhorar." Parece que a pequena implicante preferia a verdade e orientação do que um elogio simplesmente "vago".

Fez aula de desenho, mas a sua prima que nem tinha aula desenhava melhor que ela; não sei se o professor dela não era muito bom, mas logo perdeu o gosto também. Sua letra não era bonita e sua mãe insistia que ela fizesse caligrafia. Ela se esforçava, porém as letras eram tão miúdas que dava a entender que ela queria se esconder.

Começou a escrever pra si; as vezes em forma de diálogo onde ela mesma se questionava e respondia. Separando ela quanto sujeita principal desnorteada e outra interrogadora e amiga. Costumava dar certo.

Chegou a adolescência e Djenny se apaixonou. O romance agora era seu novo hobby de escrita. Procurar palavras nos livros e usá-las ali, em intensas declarações. Ao longo disso começou a tentar roubar letras. Sim! Imitava o "H" de uma professora,  o "B" da avó, o "M" da mãe, um "F" de um primo; uma inclinação de escritos antigos e assim por diante. Tomou gosto, mas muito crítica, ainda escrevia timidamente com letras bem pequenas. Contudo, a intensidade delas sobressaia.

Algum dia, nesse contexto de novo romance, Djenny pegou um escrito pra o seu namorado e leu pra mãe ouvir; ela agora sim esperava um elogio, mas a mãe, recebeu as informações do texto assustada e pela expressão no rosto dizia: "Você sente tudo isso?? Cuidado..." Mas Djenny não queria mostrar os sentimentos em si, era a beleza da construção do texto! Apenas isso; e pela mãe não perceber, se sentiu um tanto envergonhada.

Ora se ela sentia tudo aquilo? Na verdade, ela gostava mais do que criava do que realmente as coisas eram. Até o namorado que recebia os textos/mensagens comentara: "Você quando escreve parece que sente tanto! É tanta saudade, mas quando eu chego, não encontro a mesma pessoa." E era isso mesmo. Porque o maior prazer era pegar aquele sentimento da falta e dramatizar, tornar bonito.

Na escola era elogiada pela professora de português pelos seus textos; no cursinho já nem tanto, o que lhe causou estranheza e desafio, começou então a estudar pra escrever melhor e conseguiu! Depois disso passou em um curso fortemente pela sua redação. A escrita nesse momento foi importantíssima na virada da vida dela; porém, ela só se deu conta do peso disso muitos anos depois.

Alguns anos a frente e ela não tinha mais a distancia do namorado; além disso havia tantas coisas pra estudar e a realidade tão insistentemente real a deixava sem vontade de escrever, pois agora, só saiam lamentações, revoltas ou textos académicos. Focou nos estudos e esqueceu desses encontros. Evitava escrever até para não correr o risco de alguém ler o que ela tinha por dentro. Foi então que certo dia uma amiga vendo sua amargura em relação a vida, lhe sugeriu e ajudou a criar um blogger. Como ela não tinha pensado nisso antes?

Nunca havia gostado de escrever diário, pois bem, um blogger era perfeito! Escrever livremente, virtual, anônima e ainda assim, com o segredo de um bom login e senha. A escrita voltou com uma enxurrada de sentimentos, a maioria ruins. Mas começou! Era isso que importava. Externar. Djenny foi percebendo algo mágico a medida que começara a escrever: ela não tinha estrutura ou rascunho, nem perguntas exatas e argumentos pré estabelecidos, nem ao menos sabia a conclusão, como também, não havia mais aquele dialogo nítido dela e amiga analista. Não! Ela fluía sem saber o fim! E no meio disso tudo encontrava; encontrava-se. Escrevia pra se ver, se ouvir e quando enfim descobria coisas de si entendia, acolhia, chamava atenção e orientava. "Agora que sei, o que fazer com isso?"

A escrita a transformou... Ou pelo menos, deixou registrado isso. Viveu uns momentos engraçados, interessantes pra escrever e assim fez; surgiu um novo amor a qual já havia até escrito um texto sobre ele sem nem o conhecer. Depois de um tempo, mais uma vez, a escrita esfriou. Somaram-se longos dias até que veio uma pequena história pronta. Decidiu escrever. Mostrou a um amigo e ele achou fantástica! "Como você é boa nisso!" "Parece um miniconto." Ela gostou da expressão; e a partir daí resolveu fazer outro blogger e nele outras histórias foram chegando. Umas com início, mas sem saber o fim, outras chegavam enquanto ela estava andando para o trabalho; outras quando ela via algumas imagens; quando olhava para as  personalidade de algumas pessoas; algumas vinha quando brincava com nomes; lendo livros... As histórias chegavam vez ou outra, ou raramente; mas vinham sem peso.

Djenny desleixada, ignorou o dom mais uma vez até conhecer alguns novos livros, alguns desenhos de letras e algumas dicas. Uma pergunta fez ela voltar a si: "O que você gostava de fazer na sua infância? Isso pode ser acrescentado hoje no que você trabalha e te deixar mais realizado; te alimentar." Gostava de arrumar casinhas (mini, pequenas e grandes); estabelecer espaços e decorar; gostava de criar artes; [E tornou-se designer de interiores] gostava de escrever! Escrever poemas!

- "Me dar uma palavra!"

- "Escritora".

Ouviu. Ela poderia ser também escritora! Comprometer-se a nunca abondar a escrita, porque ela não pode esquecer de si, do seu grande potencial criador e revelador de inventar respiros de boas histórias e reflexões das existentes. Uma vez Djenny leu uma pergunta intrigante: "Você preferia não falar, ou não saber ler?" [Isso é pergunta que se faça?] Ela ficou na dúvida. Contudo, optou ser pior não saber ler. Porque lendo ela adquire conhecimento; aprendendo ela pode escrever e a escrita sim, pode ser sua voz!

- Escreva!

Essa é a palavra que agora ecoa pra surgirem outros novos textos. 

quarta-feira, 28 de abril de 2021

Elisa na pandemia


Elisa Paverovisk veio de uma família miscigenada e passou a habitar no país de origem do seu pai e assim ficou mais restrita a quantidade de parentes. Morando no Brasil, percebeu que em cada canto dele um novo "país" se apresentava diante de tanta cultura misturada porém ao mesmo tempo, tão distinta. Seus pais missionárias permitiram que ela tivesse contato com as mais diversas pessoas e lugares, contudo aos 19 anos mesmo assim, se sentiu sozinha.

Elisa viajará pra um país distante do seu e acabou em meio a uma surpreendente pandemia. Assim, não pode voltar pra perto do seus pais logo e com seus amigos distantes também, agora era uma estranha em outro país. As missões tinham sido adiadas, as viagens canceladas. Era hora de descobrir afinal, como experimentar o prazer na solitude a qual não havia experimentado antes por muito tempo. Para isso, alugou um loft pequeno com objetivo de sair do hostel e transformar um espaço em um lugar de pertencimento. Podia fazer isso? Estudou para dizer que "sim!".

O espaço alugado era todo branco, com móveis em madeira escura e eletros brancos também. Tão sem graça que ela pensou em olhar pra uma tela primária, precisando da criatividade de alguém. "Foi colocado os cavaletes pra sustentar isso aqui e as bases, mas falta cor!" Na verdade faltava ela, ou alguém por lá. 

Elisa então pesquisou referências na internet, comprou tintas, pintou paredes de forma orgânica; coloriu alguns móveis (pediu permissão e sim, ela poderia!); fez um mural com cordas e fotos penduradas; espalhou luzinhas acima da cama; comprou confortáveis roupas de cama, fez tapete a mão com muitos pompons que entrará na sua rotina diária como a meta de uns por dia; comprou toalha de mesa, aproveitou vidros e fez de vasos; se encarregou de levar plantas pra casa; fez um cantinho terapêutico onde praticava meditação e yoga; lia bastante; comprou um retroprojetor pra fazer "cinema" em casa; começou a dar aulas de algumas coisas que sabia na internet para que assim pudesse além de ganhar dinheiro, se ocupar. Ela também inventou receitas, fez vídeo chamadas, elaborou presentes a mão e enviou com cartas pra os amigos, adotou um cachorro (Murilo o nome dele) e parou.


Depois de um dia em que estudou, fez coisas de casa, brincou com o cachorro, parou; pois lhe ocorreu algo: isso tudo é muito bom! Mas as pessoas... As pessoas são necessárias.

A troca de energias, de saberes de faltar palavras e as atitudes, gestos, feições já suprirem. O quão é importante elas existirem pra que possamos usar as nossas referências de ser... Na totalidade, no compartilhar. Não faz sentido ser só. Chorou.

Orou, pois lembrou que não estava. Tinha pra quem orar, por quem orar. Lembrou dos seres que habitavam nela. Sim! A eudaimonia que lhe traz a criatividade necessária pra tanta coisa; o censor que lhe crítica e desafia; o espírito santo que acolhe, encoraja, equilibra... Jesus. Sim. Não estava sozinha. Imaginou-se casa, além de tantos, tantas coisas boas moram ali! E é um convívio diário. Apreciou a solitude. Mas deixando claro pra si que, esse momento é importante, fortalecedor, amoroso e libertador; porém a obrigação de fazer disso algo rotineiro e normal, não o é.

Não devia normalizar a situação atual como "novo normal", porque não condiz com a esperança, o desejo, a nomenclatura, nem a ordem de como realmente deve ser chamada. É uma fase, fase muito ruim e deve ser lamentada e enfrentada como assim ela corresponde.

A integração entre as pessoas são necessárias... Os seres dentro de nós também são. O relacionamento com o outro é necessário pra gente ser alguma coisa!

Corou, chorou, agradeceu por tanto e por tantos; desejou bênçãos a todos como se todos fizesse parte de um grande corpo; sentiu-se triste e ao mesmo tempo um pouco melhor, pois a sua "humanidade" continuava ali firme e perseverante pra o bem de todos. A sua essência era boa e nem solitude com surtos a corromperam. O outro importa. Eu me importo. Somos um.

"Isso também passa." 

"Até que venha a nova Jerusalém, fazer o melhor daqui, força."

"Amém."




terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Hipotético

Meu ponto de saída, meu subterfugiu é você. Quando eu quero idealizar situações vem tu. Tu sempre vem para preencher as hipóteses do que seria se um dia acontecesse algumas determinadas situações que eu também crio; tu vem nas hipóteses do dia que eu iria me inserindo nos teus dias e vivenciaria para além de nós, um grupo, família, povo, viagens ou, passeios pequenos. 

Minha atração venusiana insistente faz tu me visitar em alguns gêneros musicais, em alguma pessoa que nem conheço na rua; na visita a um lugar que a gente nunca foi. A gente não daria certo, sabia? Porque talvez seja algo platônico, suspeito. Quero acreditar que não daria. Ah... Mas tu é meu vicio de hipóteses. Eu sinto saudades... Da fala, do jeito que me vês, que a gente conversa, que sente, que tu és. Fica cada vez pior porque tu fica cada vez melhor e isso também são hipóteses do pouco que já vejo. Contudo, fica nisso e é só isso. Tu mexe comigo. É fato, mas és meu hipotético e só. 

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Na terapia

- Eu posso iniciar a sessão falando sobre alguns papéis que exerço, pontos focais na minha vida, depois eu vou detalhando. Especificando cada um, pode ser? O que não pode falar em uma sessão de terapia não é mesmo? Pois bem... Vou contar as minhas versões sobre o que vivo; minha forma de ver o mundo com uma liberdade de falar como se já estivesse morta: livre de julgamento com Brás Cubas. 

- Sente-se morta aqui?

- Não... Na verdade não. 

- E por que a alusão?

- Começou bem, doutor... Bem... Deve ser porque ao contar sobre muitas coisas que eu passei, elas falem de alguém que não existe mais propriamente, só os resquícios e alguns atravessamentos. Possa ser também que haja uma espécie de morte para algo reviver. No caso, eu mesma. Possa ser também que morra as minhas versões tradicionais, "adequadas" e tentativa de ser sempre muito coerente e equilibrada. 

- O que a trouxe aqui?

- O desejo pela perturbação. 

- [riso sutil] Então você sente prazer nisso? O que seria a perturbação pra você? 

- Não sinto prazer nisso, sinto prazer quando transformo as porcarias em algo bom. Mas eu tenho que saber do que realmente se trata para transformar. Não se muda o que não sabe que se deve, ou pode mudar. "Até cortas os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta o nosso edifício inteiro." Já dizia também, Clarice Lispector. E eu quero saber o que posso transformar.

Eu gosto muito dela. Não da frase em si, mas da escritora; e gosto também de Manoel de Barros. Que "transver o mundo." Inventa palavras e novos significados e contextos. Clarice eu gosto pela subjetividade, pelo olhar importante, por me ver em tantas frases, por me estimular a descobrir o que tem nas entrelinhas. Estou muito referencial de literatura brasileira não é mesmo? Me chegou essas coisas aqui. Pela sua expressão devo continuar falando. Então vou falar o que introduzi. [...]

- É muito interessante não ser julgada. Não verbalmente, nitidamente, por quem agora sabe tanto sobre mim e saberá cada vez mais. Fora você, talvez só Deus e eu saiba tanto. Que liberdade você ser um estranho condutor! As vezes eu queria saber o que realmente você pensa. Quando os clientes me falam de móveis, eu algumas vezes estou pensando tanta coisa para além dos revestimentos; estou pensando sobre eles em si, os discursos. Tem dias também, que comento na minha cabeça. E você também deve falar isso consigo. Alguns adjetivos... O oculto e mistério me atrai. Eu queria saber algumas coisas do que passa na sua cabeça como "comentador". Mas isso custaria a minha liberdade de falar tanto... Pontua pra mim. 

- Pontua? Você quer encerrar já? 

- Não. Nem todo ponto é final, né? 

- Sim... 

- Eu gosto de reticências. Tem uma tatuagem que é um ponto e vírgula para dar alusão a continuidade da vida; contra suicídio, coisa do tipo. Mas as reticencias me atraem mais. É a fala cantada, arrastada do nordeste, é o pensamento no ar, ou processo dele; a continuidade mesmo. Eu gosto disso. Já faz semanas que eu venho aqui e parece que não vai ter fim. Falante demais. Tem horas que canso dessa centralização. Há uma linha tênue na análise, entre o encontro consigo, o foco em si mesmo e o egoísmo. Eu gostaria de mudar algumas coisas pra viver no coletivo, em relação aos outros. Eu comigo mesma me dou muito bem (risos) gosto da minha companhia, das minhas formações, de quem sou. A vida é boa, mas tão cansativa. Tem momento aqui esse "foco em mim" me cansa. Falar... Falar... Tornar monstros mais reais pra destrui-los.

- Você sente que podemos encerrar o tratamento? 

- É difícil isso também. Por que você é um encontro marcado comigo mesma; me estimula, me encoraja a enfrentar, a me permitir enxergar... Mas estou querendo ficar quieta sabe? Parece que agora estou procurando problemas. E a vida não é só isso. Eu acho. Encontra problemas e resolve, encontra significados e ressignifica, encontra a origem e tira ou planta melhor na raiz, tem vezes que pensar cansa,doutor. Questionar tanto. Tem coisas que você sente e precisa apenas ter consciência do que sente com aqueles estímulos. E filtrar. "Sinto-me" bem e então faz mais disso. Vive mais isso... Não quero encerrar ainda. Tão abruptamente. Mas isso é um aviso prévio que partirei. Irei indo... Entende? Claro que entende. 

- E por que não agora?

- Você me liberaria? (risos) Por que não quero deixar de vê-lo ainda. 

- Fale mais sobre isso (risos). 

- Eu gosto do que essa expressão típica de vocês permite (risos). Mas queria perguntar três coisas sobre você que não seja invasiva. Posso?

- É importante pra você? 

- Acho que sim. 

- Por quê?

- Porque você se torna mais real. Saber algo que vem de você em si e é da sua realidade mesmo. Não só do que eu imagino. 

- Você fica imaginando coisas sobre mim? Que tipo de coisa lhe vem?

- Eu vou poder perguntar três coisas? 

- Pode. Sabendo que eu escolho se vou responder. 

- Vou também escolher não responder sua pergunta sobre o que imagino, agora. 

- (risos) Tudo bem. 

- Você joga videogame? 

- [Expressão de espanto e riso] Sim.

- [Sorriso singelo] Bom... 

- Por que quis saber sobre isso?

- Porque... É algo diferente demais imaginar sobre você. 

- E o que minha resposta lhe causou?

- Sorriso. Você viu... A gente se ver na próxima sessão. 

- (Risos) Você a encerra? Achava que você queria saber três coisas.

- Sim. Mas não tudo hoje. Deixa eu me deleitar nessa agora. E sim, eu encerro por hoje (risos).

- Tudo bem. 

- Até a próxima! 

- Até. 




sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Amor e colorimetria

Deus deve ter feito Ana Caroline iniciando pela cabeça, fico eu imaginando... Cabelos cor de barro, meio alaranjado, meio vermelho, inspirado nos telhados das casas. Liso em cima e desceu brincando em movimento, fez ondas, o barro respingou na pele, que nem a cor definida ainda estava, então Ele deixou feito folha comum, branca mesmo, salpicada de vermelhos e marrons com um leve rosado do sangue que viajará por ela. Falando em cores, complementou o tom terroso com cor de folha, Ana nasceu com olhos verdes; narizinho astuto de quem se impõe e uma boca larga de quem não nasceu pra disfarçar sorrisos. 

Cabelos cor de telha, observo eu. Telhado dela. Cabeça boa vejo eu; boa pelos bons abraços dos seus neurônios com os pensamentos dela. Ana Caroline tem equilíbrio coerente em seu labirinto. Andava pelo mundo com a exploração de uma criança e a destreza de transformações de um adulto; andava leve, ressignificando coisas, as personificava em tratamento; um amor para o cumprimento dos seus propósitos; e no meio do caminho, tinha um André. 

André do telhado (ou cabelo) preto e ao sol azulado, diferente do cabelo de Ana, o seu já foi feito divertidamente cacheado, escondendo seus pensamentos mais mirabolantes, andava como se estivesse sempre apressado, olhar sagaz e vivo. André muito jovial olhava para as pessoas como se admira ideias. Pensava sobre, ficava articulando, fica empolgado pelas miudezas de cada um e se desinteressava muito fácil para quem só falava em grandezas de si. Ele amava o mundo. A imensidão dele e as criações. Gostava muito do natural, da natureza... E no meio do caminho de André tinha uma Ana. 

Ana dos olhos cor de folha, árvore com orvalho, verdes e brilhantes. Ana leve que pausou a correria de André. Ele não estava atrasado, ele estava no tempo certo pra encontrar a moça, mas por ela, André precisava olhar devagar. Ela acompanhou um pouco da pressa dele em viver e descobriram algo em comum, o desejo do desfrutar o que há de bom na vida, a visão para coisas do alto e o movimento estimulante do morar em uma Casa 08: a vivacidade e dom de transformar!

Transformar a casa de dentro, transformar a casa de fora, transformar casas alheias e tudo que puderem com sua imaginação e ação em melhorar. Ela uma psicóloga e artesã, ele um arquiteto e ilustrador. As artes se casaram, o Criador os uniu. Imaginem o que veio dessa união de calorimetrias? 

Amora Poema, tinha um teto cor de? Amora... Cabelos arroxeados raros de se ver, cachinhos unidos e esvoaçantes querendo abraçar o mundo, olhos cor de âmbar. Exótica e poética. Criatura de artista é arte. Arte cantada e contada é poema. Daí veio o nome dela e junto com ele uma vida de significados, que mais tarde, como seus pais, mudaria, pois ela encontrará a sua forma de contar e ver as coisas do mundo: "ressignificando". 

Imagem de Amora criada por IA. 



sábado, 23 de maio de 2020

Um presente

Eu estava estudando neurociências quando recebi uma mensagem na tela do meu notebook:

"Você recebeu um vale presente. O que você precisa saber: Será um dia de folga, com tudo pago, o tempo passará diferente pra quem não for com você e eles ficarão bem. Você não precisa se preocupar com absolutamente nada, descanse. Aceita?" 

Eu sorri sem acreditar. Aliás, duvidando. Será? Mas sorrindo e em tom de brincadeira respondi como se eu pudesse falar pra quem escreveu aquilo: "Aceito!" Fechei a janela que apareceu isso e fui dormir. Acordei com som de chuva, olhei pra cima e afastei a cortina da janela, gotas de chuva descendo lentamente; chovia forte, mas deu pra ver, que havia muito verde e uma claridade dizia que o sol já estava por ali. Fechei os olhos e fiquei ouvindo... Barulho de água forte escorrendo, não parecia ser pelas calhas, mas por riachos, estava tão bom... A cama me acolhia ali com um frio que vinha apenas do clima, sem ventilador, sem ar-condicionado. Espreguicei-me e me encolhi em meio a lençóis e edredons tão macios e alvos que poderia sugerir que estava nas nuvens. Percebi que eu estava nua. Confortavelmente nua deitada por entre as cobertas. 

Sentei na cama e me dei conta: eu estava em outro lugar. Da cama eu via uma pequena sala, mas não havia TV, apenas um sofá de madeira com almofadas volumosas estampadas com mandalas em tons pastéis, não tinha tapetes em lugar algum, nem precisava, o piso era de madeira, ao lado do sofá uma mesa lateral quadrada e com entalhes, um abajur rústico igual ao que estava do lado da cama que eu estava; do lado da luminária, caneta e papel a espera de escritos um vasinho de cerâmica branco com detalhes coloridos e uma plantinha nele. Na frente de tudo isso, uma bancada de cimento queimado e tampo de madeira; era como uma copa, alguns poucos armários, frigobar e louças brancas. Tinha uma jarra com água e flores cor de rosa seco em cima da bancada e um bilhete abaixo dela. No meu campo de visão também dava pra ver uma porta a direita e depois da copa e salinha, cortinas brancas que pareciam esconder grandes portas. Eu estava em uma espécie de chalé, com estrutura toda de madeira. Fitei o bilhete, levantei e fui até ele. 

"O café será servido na casa ao lado. Não se preocupe com a hora."  

Lembrei-me do: "Você não precisa se preocupar com absolutamente nada, descanse." Então eu estava vivendo o tal presente! Como eu cheguei ali? Não sei. Levantei enrolada em um lençol e fui a porta, supunha que ali poderia ter alguma roupa, ser o banheiro, e era. Ao abrir a porta vi que o banheiro era bem grande, o piso dele era diferente, uniforme em tom de bege, as paredes com pedras grandes em seus vários tons de marrons. Tinha várias plantas suspensas, a cuba da pia ficava em cima de uma bancada de madeira maciça e atrás dela um espelho grande, foi quando eu me vi. O cabelo solto, leve e macio, eu estava sem resquícios de maquiagem, mas não havia marcas firmes de olheiras, a pele parecia mais bonita, aproximei e vi que parecia ter passado por uma limpeza de pele, sobrancelha feita... Eu estava em um SPA? Não me lembro de nada! Meu rosto dizia que tive uma boa noite de sono e o resto do meu corpo também sinalizava isso. 

Por trás de uma cortina de conchinhas encontrei o chuveiro, ao fundo do espaço pra banho plantas e pedrisco no chão com uma parede mais atrás coberta de planta; a chuva estava caindo diretamente nas plantas, observei que nessa parte, não havia teto. Liguei o chuveiro além de a água descer, automaticamente começou uma música instrumental de gênero "profundo, envolvente e zen", eu não sei explicar. A água estava um tanto morna e ao lado da cortina havia um roupão branco e extremamente robusto e confortável só de olhar. Parecia feito com o mesmo tecido da manta da cama. Ao terminar o banho vesti. 

Fui pra o quarto e dessa vez eu vi perto da cama uma mesinha com uma pequena mala de palhinha. Lá estavam alguns pertences meus! Uma calça azul estampada de praia, uma regatinha de algodão branca, meus chinelos, entre outras coisas; arrumei-me empolgada, abri as cortinas e vi portas grandes de vidro para um jardim imenso que mais parecia uma floresta e uma ponte pequena logo na frente da varanda me ajudariam a atravessar o riacho que passava por baixo. Havia sim, águas correntes por ali, além da chuva! Eu não me molhei muito porque a ponte era coberta em cima; segui indo aonde a ponte levava. Lembrei: Estou sozinha! Radiantemente sozinha.  Sentindo bem e  amada... Quem será que me deu esse presente? 

Depois de umas poucas curvas (onde dava pra ver que havia outros chalés por ali perto) encontrei a "casa ao lado". Pequenos degraus de madeira me fizeram entrar nela. O que era pra ser a sala era um restaurante de madeira e vidro que possuía um formato que lembrava uma casa; lindo! Ali sim, tinha algumas pessoas, casais, famílias, crianças brincando em mesas menores, neném lambuzado de comida, mas as mesas eram espaçadas e eu não conseguia ouvir nada além da música e algumas risadas. As pessoas pareciam tranquilas e satisfeitas, eu estava encantada e fiquei mais ainda quando vi a mesa com um banquete! 

A mesa estava bem colorida e saborosa só de olhar. Tinha frios, folhados, cuscuz, frutas, sucos diversos, café, leite e um cardápio de comidas a mais a serem feitas. Separei o que eu comeria em uma bandeja que havia disposta para os clientes; levei a mesa e me sentei olhando aquela paisagem deslumbrante.  Quando eu terminei, uma moça veio falar comigo e me entregou um panfleto em papel reciclável que dispunha de algumas práticas disponíveis naquele lugar, juntamente com um mapa que me guiaria pra cada uma e seus horários de funcionamento. Lá havia: aulas de yoga, pilates, vários tipos de meditação, pintura, oficinas de artesanato, culinária, musicoterapia, hidroterapia, diversos tipos de massagem; salão de beleza, feirinha... Era um “mini mundo” bom, pensei. "Aqui é o céu"? 

Passei a tarde inteira entre Yoga, meditação, banho livre na piscina, massagem, aula de culinária em que aproveitei todos os meus sentidos sensoriais, dei boas risadas. Até a manicure dispunha de óleos essenciais para massagem nos pés e nas mãos, eu amei! Aprendi a fazer penteados afros também. Quase que saio tendo adotado alguma filha (risos). Fiz amizades e jantei com um pessoal "vibe" boa. Comemos pizza! Divinas pizzas de sabores inusitados que eu não sei o nome além de nomeá-las de: delícias estupendas! E tomamos vinho, brindamos, oramos em gratidão. Começamos brandos falando baixinho e depois já estávamos em conversas mais altas e sorrindo bastante. Dançamos também. Não sei explicar qual era o gênero. Era uma mistura dançante! Saias rodopiavam, calças erguidas, pés descalços ou, sandálias baixinhas confortáveis. Foi muito bom! 

Voltei ao quarto em estado de êxtase, sozinha e feliz. Amada. Foi como me senti o dia inteiro. Especial, cuidada. E foi lindo de ver que cada um parecia se sentir assim também. Tinha amor exalado pra todo mundo. Vinha daquelas plantas? "Oxigenamor"? Vinha dos céus nas gotas de chuva? Vinha da terra e alimento que nos sustenta? Vinha do sol, da noite que nos aquece e nos sombreia? Vinha de tudo. Vinha das criações do Criador. Era presente dEle mas é claro! A perfeição da sua natureza detalhada em tudo, detalhada e transmitida em nós. Essas pessoas não poderiam ser tão lindas em suas inúmeras expressões e aptidões se não tivessem um tanto de Deus em cada uma delas. 

Ahh... Foi lindo. E agradeci e agradeço por cada momento em que fui agraciada e amada. Eu não fiz nada pra merecer, mas Ele me apresentou um céu na terra pra eu saborear um pouco do muito que ainda está por vir. E já foi tanto! 


Voltei para o meu quarto/ chalé. Tomei banho sorrindo e lembrando. Fui para cama e adormeci prontamente. Acordei aqui. Aqui nesse mundo que tem um monte disso que vivi, mas de forma fragmentada e tão grandemente rara essa junção. Lembrei-me de uma música do Teatro Mágico que diz: "Tem hora que a gente se pergunta como é que não se junta tudo numa coisa só?" Há um mundo bom. Em algum tempo e lugar. Haverá um mundo apaixonadamente bom.